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OLHAR TÁTICO: O “Milagre de Doha” sob um olhar tático, porém muito mais mental e emocional

Os comandados de Hajime Moriyasu fizeram história na última rodada da fase de
grupos ao vencer a fortíssima Espanha e cravarem a primeira colocação do
grupo

Samurais conseguem mais um feito histórico em Doha
(Foto: Getty Images)

A terceira rodada da Copa do Mundo FIFA trouxe uma
verdadeira redenção para a seleção japonesa, para o futebol japonês como um
todo e, acima de tudo, para o povo japonês. Como já explicamos, debatemos e
falamos nas últimas semanas, a capital do Catar (Doha) foi o local da maior
tragédia do futebol japonês em termos futebolísticos e é lembrada até hoje como
“A Agonia de Doha”.

O passado continuará existindo e, em certo sentido, é bom
que ele exista e seja lembrando, já que as derrotas do passado podem e devem
ter significados para as gerações atuais, que tentarão não cometer os mesmos
erros. A numerologia
japonesa em busca de uma improvável classificação não trazia um vento calmo e
agradável, porém o Japão foi valente e mentalmente capaz de, pela segunda vez
dentro da Copa do Mundo, virar contra uma seleção campeã do mundo e se
classificar.





No Olhar Tático da épica classificação japonesa para as
oitavas de final não falaremos tanto sobre tática ou movimentos em si, mas sim
sobre mentalidade, controle, calma e emocional. Porém, se você gosta de tática
não se preocupe, afinal, já temos um texto
destrinchando o que foi a partida com alguns pitacos de como foi o jogo.


Na última postagem,
citei sobre o fato de conforto e desconforto para a seleção japonesa, onde o
time tem maior facilidade em enfrentar times melhores, já que o Japão não se
sente confortável em ter a bola e criar jogadas contra defesas mais fechadas.
Logo, era possível de se imaginar que o Japão teria espaços contra a Espanha e
que o jogo encaixasse de melhor maneira do que contra a Costa Rica.

Apesar da teoria funcionar dessa maneira, a prática acabou
sendo completamente diferente, já que a Espanha dominou completamente as ações
no primeiro tempo. A marcação alta e a rápida retomada da posse de bola foram
um grande problema para o time do técnico Hajime Moriyasu, que entrou com a
plataforma (esquema) dos segundos tempos dos jogos.





Nas partidas anteriores, o treinador japonês mudou de uma
linha de 4 (primeiro tempo) para uma linha de 5 (segundo tempo), porém dessa
vez já iniciou com três zagueiros e com alas. No entanto, diferentemente dos outros
jogos, isso não funcionou no primeiro tempo, já que o meio-campo (sem Endo) não
conseguia competir e Nagatomo não conseguia dar a profundidade necessária pelo
lado esquerdo.

(Foto: Bruno Peradotto)

O técnico Moriyasu não teve Sakai, mais uma vez, e escalou Junya
Ito como ala pela direita, ao passo que precisou colocar Ao Tanaka no lugar de
Endo (problemas físicos). Além disso, Kubo voltou a aparecer na equipe, agora
pelo lado direito de campo, juntamente com Maeda no lugar de Ueda. Em suma,
Moriyasu mudou diversas peças pelo terceiro jogo dentro da Copa do Mundo e
ainda não utilizou como titular, entre os jogadores que estão entrando frequentemente,
apenas Tomiyasu (problemas físicos), Mitoma (guarde esse nome), Asano e
Minamino.

A Espanha atuou no seu tradicional 4-3-3 com o Morata no
comando de ataque e sem seus laterais titulares (Carvajal e Alba). As mudanças
de Luis Enrique me pareceram corretas, já que o time tinha uma situação
favorável no grupo e rodou algumas peças do elenco.





O controle espanhol na primeira etapa foi avassalador e o
Japão saiu no lucro com apenas um gol sofrido (Morata). Aliás, pelo controle
físico, tático, técnico, mental e emocional parecia que a Espanha poderia ter
feito muito mais do que realmente fez no primeiro tempo.


Na segunda etapa da partida, o técnico Hajime Moriyasu mexeu
já no intervalo, pelo terceiro jogo seguido, com as entradas de Mitoma (saiu
Nagatomo) e de Doan (saiu Kubo). O treinador dos Samurais Azuis procurava dar
mais profundidade com Mitoma pelo lado esquerdo, já que é um ponta jogando como
ala. Por outro lado, Takefusa Kubo não fez uma boa partida e saiu no intervalo
pela segunda vez (havia sido substituído no intervalo do jogo contra a
Alemanha).



As substituições deram um efeito imediato, já que os
jogadores que entraram foram e são mais agressivos com a bola no pé. Além
disso, o que realmente mudou foi o fator anímico do time japonês, que, com a
contribuição do goleiro espanhol, empatou o jogo com Doan (também marcou o gol
de empate contra a Alemanha).

Japoneses comemoram o segundo gol marcado diante da Alemanha
(Foto: Getty Images)

Realizar alguma coisa pela primeira vez é muito complicado,
já que você não tem um referencial de como fazer essa determinada coisa, porém
se você já fez uma vez, certamente, as próximas vezes ficarão mais confortáveis
e simples de se realizarem. O que eu quero dizer com isso é o fato de que o
Japão tinha conseguido virar contra a Alemanha na penúltima partida e esse
fato, com toda certeza, foi colocado dentro da cabeça (da mentalidade) dos
japoneses para esse segundo tempo.

A bola que Mitoma salva e Tanaka completa para dentro do gol
foi apenas a execução do que havia no plano mental e emocional do time japonês.
Ou seja, os japoneses tinham a confiança de que era possível virar contra uma
seleção campeã do mundo em um jogo extremamente desfavorável no ponto de vista
técnico, físico e tático.

Algumas pessoas, inclusive jornalistas renomados, falaram
que a Espanha entregou o jogo, principalmente após a Costa Rica não ter mais
chances contra a Alemanha. Particularmente falando, eu acredito que é
extremamente deselegante insinuar que jogadores profissionais vão,
deliberadamente, jogar para perder a partida.







Mesmo que a Espanha tenha tirado o pé, após ficar em
situação confortável dentro do grupo, não acho que seja honesto afirmar uma
coisa dessas. O Japão fez o seu milagre de maneira muito justa e competente,
enquanto a Espanha foi ineficaz dentro do que o jogo apresentou para ela,
principalmente em não conseguir furar o ferrolho japonês nos (longos) minutos
finais.


E agora?
Como será contra a Croácia?

Hajime Moriyasu conseguirá surpreender novamente?
(Foto: Getty Images)

O Japão já fez história dentro da Copa do Mundo e, aparentemente,
qualquer coisa será lucro para o time comandado para Hajime Moriyasu. Porém,
acredito que exista chances reais do Japão chegar nas quartas de final da Copa
do Mundo e enfrentar, quem sabe, a seleção brasileira.



Bem, os próximos passos estão já marcados para a seleção
japonesa e nos resta apenas apreciar, torcer, se irritar e acompanhar esse
grande milagre. Nos vemos nas oitavas e que venha a Croácia, atual vice-campeã
do Mundo.









SOBRE O AUTOR:







BRUNO PERADOTTO | REDATOR | @brunoperadotto - Apenas mais um entusiasta de futebol e cultura japonesa. Bacharel em Ciências Econômicas e pós-graduado em Gestão de Pessoas, ambas pela PUCRS. Atualmente, um aspirante a treinador pela ATFA (Licença C e B), pós-graduando em Futebol e realizando um bacharel em Educação Física pela UFRGS.




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