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O momento é da Ásia, mas...

A grande estrela Cristiano Ronaldo sendo apresentado no Al-Nassr, da Arábia Saudita
Foto: Getty Images

Recentemente, voltaram à tona as especulações sobre o próximo destino de Lionel Messi, o argentino está de saída do PSG e tem seu nome muito vinculado ao Al-Hilal, da Arábia Saudita. As informações dão conta de que o salário oferecido pelo atual vice-campeão mundial e asiático superaria o atual salário de Cristiano Ronaldo no também saudita, Al-Nassr.



Caso Messi decida deixar a Europa para se
juntar ao rival geracional na Arábia, seria a primeira vez que os dois maiores
jogadores de uma geração do futebol não estariam (pelo menos um deles), atuando
no futebol europeu desde 1977, quando Beckenbauer se uniu com o Rei Pelé no New
York Cosmos.



Mas o que a ida de Messi para o futebol
asiático significa para o mundo?



Não é de hoje que discutimos o conceito dos
“petrodólares”, o fruto das grandes riquezas do futebol no Oriente Médio
impulsionado pela exploração do petróleo. Essa gastança sem limites, até 2018,
era de certa forma restrita aos clubes europeus que se tornavam propriedades
dos líderes árabes, como Manchester City e PSG.



Após 2018, a Arábia Saudita entrou forte no
mundo do futebol de clubes, não apenas com a compra do Newcastle United, da
Premier League, mas também com grandes investimentos no futebol local,
permitindo que Anderson Talisca trocasse o, na época, poderoso Guangzhou pelo
Al-Nassr, que o Al-Ittihad trouxesse Nuno Espírito Santo da PL. Os salários
pagos pelos árabes se tornaram muito atrativos para treinadores e jogadores que
passaram a escolher o ‘Sauditão’ como nova casa.

A Arábia assumiu o posto que já foi ocupado
pelo Japão nos anos 90 e 2000 e pela China nos anos 2010, de atrair grande
nomes do futebol mundial em processo de fim de carreira com grandes salários.
Também colocando os sauditas em dominância no Oriente Médio, já que Catar e
Emirados Árabes geralmente contratam jogadores medianos com salários
astronômicos.



Embora ainda não seja traduzido em dominância
na AFC Champions League, o investimento maciço no futebol da Arábia Saudita
coloca um grande ponto para as potencias orientais, no caso Japão e Coreia do
Sul. Talvez esteja na hora da J-League e da K-League se reestruturarem no
sentido do mercado para não perderam a dominância continental para os árabes.


Jogadores do japonês Urawa Reds erguendo a taça de campeão asiático 2022. A terceira da história do clube
 Foto: Getty Images


Pauso o texto para explicar a dominância que
citei. No futebol de seleções, ainda é óbvio para qualquer um que não seja um
“negacionista da bola” que Japão e Coreia dominam o continente asiático com
folgas, mas quando falamos do futebol de clubes, essa dominância é traduzida
via títulos da ACL. O Oriente Médio não engata títulos continentais em
sequência desde 2003-2004-2005, com uma taça para o Al-Ain e duas para o
Al-Ittihad, e desde 2006, somente os dois títulos do Al-Hilal foram pro Oriente
Médio, ou seja, nos últimos 16 anos foram 14 títulos asiáticos para equipes do
extremo oriente (Japão, Coreia, China e Austrália). Essa é a dominância que
quis citar.



Com o mercado chinês se tornando cada vez
menos atrativo, devido a retirada de investimentos das grandes empresas locais,
e demonstrando desempenhos patéticos na ACL, cabe a Japão e Coreia do Sul
confrontarem o poderio econômico do futebol árabe.



Poderio este que pode aumentar. Assistindo ao
“De Placa” da TNT Sports, Vitor Sérgio Rodrigues e Jorge Iggor brincaram sobre
a empresa adquirir os direitos para transmitir o Campeonato Saudita. Esta
brincadeira é real, apenas o nome Cristiano Ronaldo elevou o Al-Nassr a um
patamar de marketing superior a qualquer time japonês, com Messi possivelmente
chegando, o poder de barganha da liga aumenta ainda mais e coloca mais opções - além dos “petrodólares - para a estruturação e contratação de craques pelos
clubes.



Nos últimos 15 anos, os times de Japão e
Coreia tem investido mais em formação de atletas e, quando trazem jogadores de
fora, são jogadores medianos em seus continentes de origem. O único que foge do
padrão é Andrés Iniesta no Vissel Kobe e ainda assim o atual líder da J1 pode
perder a lenda espanhola para o ano que vem.



Claro que todo esse projeto deve seguir uma
boa orientação financeira, o Japão é a terceira maior economia do mundo, mas
não tem acesso a uma fonte quase ilimitada de dinheiro como o Oriente Médio,
além da preferência por investimentos em outras áreas da sociedade. Porém, a
J-League tem condições de criar um novo mercado usando de apoios financeiros
para clubes que desejam trazer jogadores de peso para alavancar o poderio
comercial e esportivo da própria liga.



Nesse quesito, a MLS domina. A liga apoia
financeiramente as franquias para que possam trazer jogadores de elite, claro que
em fim de carreira, para disputar a liga dos Estados Unidos e aumentar o poder
comercial. O napolitano vai acompanhar o Insigne no Toronto, assim como muitos
‘culés’ acompanharam e ainda acompanham Iniesta em Kobe.



Agora eu peço que usem a imaginação de vocês para
fazermos um exercício. Al-Nassr e Al-Hilal contratam Cristiano Ronaldo e Messi,
mas ao mesmo tempo Ulsan Hyundai e Yokohama F. Marinos conseguem incentivos
financeiros das respectivas ligas e da AFC para trazerem Son e Neymar. O
mercado coreano explodiria junto com o japonês, além de dar um upgrade na
disputa da Champions da Ásia, com torcedores sul-americanos e europeus
esperando os mata-matas para ver Son, Neymar, Messi e CR7 por seus respectivos
clubes se enfrentando!



Pauso mais uma vez o texto para me explicar.
Por que citei Son e Neymar especificamente? Primeiro ponto; é apenas um
exercício de imaginação usando dois dos melhores do mundo, mas que vivem
momentos de instabilidade em seus clubes. Neymar nunca esteve tão próximo de
deixar o PSG, enquanto Son parece cada vez mais desconfortável com o ambiente
do Tottenham. Segundo; Son é quase um deus na Coreia, não é impossível (com os
incentivos certos) que o capitão da seleção retorne ao país natal, já Neymar é
reverenciado no Japão e poderia se aproveitar de inúmeras características
futebolísticas e culturais japonesas para ‘se sentir mais a vontade’ na
J-League. Explicado?



Finalizo este texto dizendo o seguinte, em
nossa cultura eurocêntrica, quase sempre nos esquecemos que até a batalha de
Diu em 1509, o poder econômico global era asiático, que os chineses navegaram
pelo Índico antes dos portugueses e que existe uma corrente teórica dizendo que
os chineses teriam chegado às Américas antes mesmo de Colombo. Também não nos
atentamos para o que o futuro parece nos reservar. Já são dois anos seguidos
que filmes coreanos vencem o Oscar, o K-Pop cresce a cada dia mais, a cultura
japonesa, via animes e mangás, tem crescido exponencialmente no ocidente, além de
a geopolítica e economia da China estarem, cada vez mais, no centro de
discussão das potências. A Ásia foi o passado e é o futuro, o futebol parece
seguir pelo mesmo caminho.



O momento é da Ásia, mas pelo menos no
futebol, Japão, Coreia e China precisam se atentar à Arábia Saudita.












SOBRE O AUTOR:





MATHEUS BRAGA | @oMatheusBPaes -  Formado em Jornalismo pelo Mackenzie, pós-graduando em Jornalismo Esportivo pela Cásper Líbero. Consumidor de light novels, mangás e animes e apaixonado pela cultura oriental.


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