30 anos da J-League: A era amadora
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| Foto: Japão FC |
Antes mesmo
da profissionalização da J-League, a JSL já trazia os alicerces da liga que a
sucederia nos anos 90.
2023 é um
ano bastante importante para a história do futebol japonês: é o ano que marca a
criação da Japan Professional Football League, ou simplesmente a J-League, que
hoje regula as primeiras três divisões do Campeonato Japonês de Futebol.
A J-League
hoje é uma das ligas melhores estruturadas e mais competitivas do continente
asiático, além de servir de exemplo para muitos países ao redor do mundo. A
liga foi disputada pela primeira vez em 1993, ano em que apenas a primeira
divisão era disputada - a J2, 2ª divisão nacional, seria inaugurada em 1999, e
a J3 em 2013.
Mas
engana-se quem pensa que a J-League representa o início do futebol no Japão.
Décadas antes já havia a disputa de clubes em um campeonato organizado: a Japan
Soccer League, que por muito tempo foi uma competição bastante popular no País
do Sol Nascente.
JSL: o nascimento e o auge
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| Partida disputada entre o Toyo Industries e o Mitsubishi Heavy Industries pela JSL de 1966 Foto: BBM |
A Japan
Soccer League - JSL, na sigla - foi inaugurada em 1965, sendo disputada em seu
primeiro ano por apenas oito clubes. O campeão foi o Toyo Industries, que viria
a se tornar o Mazda SC, precursor do atual Sanfrecce Hiroshima.
A liga era
disputada por clubes amadores, que eram representados por grandes empresas
japonesas, que eram donas das equipes. A liga provou ter potencial de
crescimento, ao ponto de ter sido necessária a criação de uma segunda divisão
em 1972, além de um sistema de promoção e rebaixamento.
A criação da
JSL foi acompanhada de um grande feito do futebol japonês nos Jogos Olímpicos
de 1964, disputados em Tóquio. Apesar de ter sido eliminado nas
quartas-de-final, o time japonês venceu a Argentina na fase de grupos por 3 a
2, mesmo que, à época, apenas atletas amadores podiam disputar as Olimpíadas.
Assim como
nas Olimpíadas, a JSL admitia apenas atletas amadores. E, assim como a liga
japonesa de beisebol, as equipes representavam as empresas às quais os clubes
pertenciam. A competitividade do torneio fez com que a seleção olímpica
conquistasse a medalha de bronze nas Olimpíadas de 1968, na Cidade do México.
As
conquistas do Japão nas Olimpíadas fizeram com que a JSL se tornasse bastante
popular, e, após o surgimento da 2ª divisão, o país recebeu o Mundial Sub-20 da
FIFA, em 1979. Além disso, muitos atletas de outros países - alguns brasileiros,
inclusive - passaram a disputar a JSL.
O Início do Fim
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| O Yumiuri FC, do nipo-brasileiro Ruy Ramos e de Kazu Miura foi o campeão da última edição do JSL em 1992 Foto: reprodução da internet |
Apesar do esporte ter começado a ganhar notoriedade no país,
ao ponto de várias edições da Copa Intercontinental (ou Mundial de Clubes, como
queira) passaram a ocorrer no Japão, a seleção japonesa principal colhia
pouquíssimos frutos desse sucesso.
Isso se devia ao fato do país ter mantido por tanto tempo a
sua principal liga como uma competição amadora, onde os jogadores tinham que
dividir turnos entre trabalhar para as suas empresas empregadoras e depois ter
que defender os times delas na JSL - e, claro, sem serem pagos para jogar.
Amostra disso vinha até da própria seleção do Japão. Apesar
dos bons desempenhos nas Olimpíadas, o time principal nunca chegou a disputar a
Copa do Mundo entre os anos 1960, 1970 e 1980. Para se profissionalizar, os
jogadores japoneses precisavam deixar o país e defender um clube profissional
em outro país.
A liga também começou a perder popularidade dos fãs durante
os anos 1980, mesmo quando passou a ser permitida a participação de atletas
profissionais na JSL, em 1986. Ainda faltava algo que poderia fazer o futebol
japonês mais forte e competitivo na Ásia: a profissionalização.
E foi pensando nisso que a Japan Football Association (JFA)
estabeleceu a J-League em 1992, junto de outros dez clubes que inauguraram a
primeira temporada da competição em 1993 - mas isso é tema para a parte 2 de
nosso especial.
E a JSL? A JFA reformulou a competição para se tornar a
Japan Football League (JFL), que se tornou uma liga semi profissional entre
1993 e 1998, e a divisão foi novamente modificada em uma "nova" JFL
em 1999, quando a J2 foi estabelecida. Hoje, com a J3, a JFL equivale à 4ª
divisão japonesa.
Os campeões e o marco
de Okudera
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| Yasuhiko Okudera em ação com a camisa do FC Colônia em 1978 Foto: Jiji Press |
Yomiuri FC e o Mazda SC, clubes que foram pentacampeões e vieram a se tornar o
Tokyo Verdy e o Sanfrecce Hiroshima, respectivamente, após a formação da
J-League. Outros dois times se destacaram com 4 títulos cada; o Mitsubishi
Motors (atual Urawa Reds) e o Yanmar Diesel (Cerezo Osaka).
Um jogador que marcou o período da JSL foi Yasuhiko Okudera,
que defendeu a camisa do Furukawa Electric (atual JEF United) entre 1970 e
1977, e veio a se tornar o primeiro jogador japonês a se tornar profissional ao
se transferir para o Colônia, da Alemanha, onde jogou de 1977 até 1980.
Okudera ainda voltaria a jogar na JSL em 1986, retornando ao
Furukawa Electric, depois de também vestir as camisas de Hertha Berlin e Werder
Bremen na Bundesliga. E, claro, sua experiência pelo futebol alemão inspirou a
organização da J-League, que iremos conferir na próxima parte.
No fim, é importante reconhecer a história da JSL para
compreender a J-League, mostrando que o futebol já tinha sua tradição no Japão.
Mas, como veremos, a profissionalização do esporte nas ilhas nipônicas elevaram
o nível do futebol japonês a outro patamar, tanto em seus clubes como na
seleção nacional.
SOBRE O AUTOR:
MATHEUS TAKAHASHI | @takamatheus - Natural de Brasília, é geógrafo pela UnB e especializado em Geografia do Futebol. Já foi professor e redator em sites de notícias. Amante do futebol, aprecia o futebol japonês como forma de se conectar com a cultura nipônica.. |





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