OLHAR TÁTICO: Como o Japão conseguiu derrotar a poderosa Alemanha de Hans Flick
Sob um ponto de vista tático, Bruno Peradotto faz uma análise da atuação dos Samurais Azuis no grande triunfo diante dos alemães
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| Samurais Azuis comemoram o gol de empate diante da Alemanha (Foto: Getty Images) |
A seleção japonesa de futebol masculino conseguiu na última
quarta-feira alguns feitos que ficarão eternizados em sua história. Como por
exemplo, podemos citar que pela primeira vez o time conseguiu virar uma partida
em uma Copa do Mundo, além de ser a terceira seleção asiática em conseguir esse
feito. Bem, só por esse dado poderíamos afirmar que o Japão fez história, porém
é preciso pontuar que no outro lado havia uma das seleções mais constantes e
avassaladoras da história do futebol.
Bem, o Japão desafiou a fortíssima (renovada) seleção alemã
e conseguiu uma vitória épica nessa primeira rodada da fase de grupos da Copa
do Mundo. Particularmente falando, eu vi várias mensagens falando em zebra ou
em resultado vergonhoso para a seleção da Alemanha.
O que pretendo fazer aqui é mostrar algo além da zebra ou
mau desempenho da seleção alemã, pontuando o que deu certo para as duas
seleções e o que deu errado. Vamos aos poucos, começando das escalações
iniciais.
As
Escalações Iniciais e o Primeiro Tempo
O técnico Hajime Moriyasu procurou escalar um time com a
ideia de marcar em uma linha baixo-média e com muitas perseguições individuais
no centro do campo, já que do outro lado o jogo passa muito pelos pés de Kimmich e Gundogan.
A plataforma de jogo escolhida para isso foi o 4-2-3-1, procurando espelhar o
time alemão.
A estratégia até deu certo nos primeiros minutos, inclusive com um gol anulado de Maeda, porém a Alemanha começou a empurrar a
linha defensiva japonesa cada vez mais perto da área nipônica, o que dificultou
(e destruiu) completamente a ideia do técnico japonês.
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| (Foto: Bruno Peradotto) |
Como dito acima, as duas seleções entraram na mesma
plataforma de jogo, ou seja, um 4-2-3-1, com um centroavante, na teoria, mais
móvel. Contudo, a maneira como esses sistemas se comportaram foram
completamente diferentes.
A Alemanha jogava com dois laterais com funções opostas, já
que o Seule é um zagueiro improvisado pela lateral-direita. Portanto, a seleção
alemã jogava com uma linha de três em vários momentos e empurrava o Raum como
um ponta pelo lado esquerdo praticamente.
Esse movimento fazia o Musiala cair pelo centro do campo e isso
criava uma dobradinha com Muller, o que dificultava a marcação no centro do
campo de Endo e Tanaka. O primeiro e único gol da Alemanha saiu em uma
invertida do lado direito, passe do genial Kimmich, para o esquerdo, com uma
entrada do Raum nas costas do Sakai.
Japão) estava claro como estratégia do time alemão e o Japão teve inúmeras
dificuldades em controlar esse espaço no primeiro tempo. A atração pelo lado
direito, com Muller caindo por esse lado, e buscar o lado oposto desmarcado foi
observada em diversos momentos.
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| Momento em que Gonda comete pênalti em David Raum, que gerou o gol da Alemanha (Foto: Getty Images) |
Além dos problemas de ordem tática, Moriyasu escolheu o
jovem Takefusa Kubo para iniciar o jogo e não deu nada certo. O talentoso
futebolista japonês até iniciou bem a temporada europeia pela Real Sociedad,
mas pareceu não conseguir competir, principalmente na parte física, com os
alemães.
O primeiro tempo terminou com o placar de 1x0 para a seleção
tetracampeã do mundo em pênalti inocente cometido pelo goleiro Gonda, porém o
que mais preocupava era o fato de que a Alemanha não deixava o Japão respirar e
parecia que uma goleada iria sair.
As Mudanças
e o Segundo Tempo
Se Moriyasu errou na escalação inicial e atraiu a Alemanha
para o seu próprio campo em todo o primeiro tempo, ele conseguiu perceber esses
erros e mudou no segundo tempo de maneira perfeita. A primeira mudança foi a
entrada de Tomiyasu - peça fundamental para o time, porém não estava em suas
melhores condições - no lugar de Kubo.
Talvez em outros tempos pensaríamos que tirar um ponta para
colocar um zagueiro/lateral seria atrair ainda mais o adversário, só que o
oposto aconteceu já que com isso o Japão transformou seus laterais em alas. Com
Sakai como ala, o Japão começou a controlar melhor as descidas do Raum e,
melhor ainda, começou a conseguir atacar com maiores consistências.
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| (Foto: Bruno Peradotto) |
Além da primeira mudança ocorrida ainda no intervalo, que
alterou a linha defensiva de quatro para cinco jogadores. O técnico nipônico
utilizou todo o talento que tinha em seu banco de reserva e mudou o jogo de
vez.
O ótimo Kaoru Mitoma entrou como ala no lugar de Nagatomo,
enquanto Maeda saiu para Asano e Minamino entrou no lugar de Sakai, empurrando
o Ito para a ala. Com todas essas mudanças, o Japão fez o que deveria ter feito
desde o início, ou seja, atacar a Alemanha.
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| O gol marcado por Ritsu Doan que deu início a reação japonesa (Foto: Getty Images) |
de Hans Flick é similar ao seu Bayern; logo, é um time que controla muito a
posse de bola e toma muitos riscos em sua defesa. Portanto, se você esperar a
Alemanha em seu próprio campo e jogar estacionando um ônibus em sua defesa,
possivelmente eles acharão um espaço e você perderá.
Nesse sentido, o Japão deveria ter “respeitado menos” a
seleção alemã desde o inicio da partida, em um paralelo que a Arábia Saudita
fez com a Argentina. Bem, se respeitou demasiadamente no primeiro tempo, a narrativa
foi outra no segundo e com gols de Doan (entrou no lugar de Tanaka) e Asano, o
time japonês fez história em Doha.
O
primeiro passo do “Milagre de Doha”
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| Os Samurais Azuis comemoraram como um título a grande vitória diante da Alemanha (Foto: Getty Images) |
No meu último post, falei sobre a
“tragédia de Doha” (agonia) vivido pela seleção japonesa em 1993, porém hoje o
Japão viveu um “Milagre de Doha” e, com a goleada da Espanha sobre a Costa
Rica, têm chances reais de passar para as oitavas de final da Copa do Mundo.
Outros pontos que devem ser destacados são o fato de que
como (quase) todo confronto onde um time mais fraco acaba derrotando o mais
forte, o grande destaque da partida foi o goleiro Shuichi Gonda, que realizou
verdadeiros milagres e evitou a derrota japonesa. Outro ponto interessante é a
quantidade de jogadores japoneses que atuam na Alemanha e estavam em campo.
O Japão tem oito convocados que atuam na Alemanha, sendo que sete deles acabaram atuando na partida de hoje. Talvez você se lembre do famoso
“ele conhece os alemães”, porém no fundo conhecer é muito útil, já que você
está acostumado com o nível de enfretamento necessário e nada te surpreende.
Que no próximo jogo contra a Costa Rica, que iniciou de
maneira péssima o mundial, o técnico Hajime Moriyasu seja muito mais sua versão
de segundo tempo do que de primeiro, já que o Japão precisa vencer e não
depender de mais um “milagre de Doha” contra a Espanha.
SOBRE O AUTOR:
BRUNO PERADOTTO | REDATOR | @brunoperadotto - Apenas mais um entusiasta de futebol e cultura japonesa. Bacharel em Ciências Econômicas e pós-graduado em Gestão de Pessoas, ambas pela PUCRS. Atualmente, um aspirante a treinador pela ATFA (Licença C e B), pós-graduando em Futebol e realizando um bacharel em Educação Física pela UFRGS. |







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