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Da Agonia ao Júbilo: Japão faz história e se consagra em palco onde viveu drama

Palco da "Agonia de Doha" em 1993, o Khalifa Stadium presenciou o maior triunfo da história dos Samurais Azuis em Copas do Mundo

Final feliz para os Samurais desta vez
(Foto: Getty Images)

Abrindo o chamado “Grupo da Morte” nesta manhã, no estádio Khalifa, a seleção japonesa resolveu mostrar porque não pode ser considerada uma zebra mesmo diante de duas campeões do mundo (a Espanha também integra o grupo ao lado da Costa Rica), e com muita competitividade (e qualidade), iniciou sua trajetória no Catar fazendo história.


Como as equipes
entraram em campo

jogadores alemães no aquecimento antes da partida
(Foto: DFB Team / Twitter)

Os alemães entraram em campo com toda a pompa (e o
favoritismo, claro), que uma tetra-campeã mundial pode ter. Atraindo olhares de
todo o mundo, a Nationalef do técnico
Hans-Dieter Flick — que assumiu o selecionado após um esplendoroso trabalho no
Bayern de Munique — agora mesclava nomes já consagrados e de grande apelo com o
público geral (Manuel Neuer, Joshua Kimmich, İlkay Gündoğan e também Thomas
Müller) e outros mais novos, promessas do país (como Nico Schlotterbeck, David
Raum e a principal delas, o garoto Jamal Musiala).

A maior surpresa na escalação da Alemanha era a ausência de
Leon Goretzka, que iniciou a partida no banco; todavia, a equipe ainda tinha
quatro dos seis homens do meio para a frente atuando no mesmo clube (o Bayern),
o que rendia um entrosamento ainda importante.





📋 Manuel Neuer; Niklas Süle, Antonio
Rüdiger, Nico Schlotterbeck e David Raum; Joshua Kimmich e İlkay Gündoğan;
Serge Gnabry, Thomas Müller e Jamal Musiala; Kai Havertz (4— 2— 3— 1).


Os Samurais entraram concentrados
(Foto: Getty Images)

Os japoneses enviaram ao Catar a melhor geração de sua
história. Nunca os Samurais Azuis chegaram com um trabalho tão acurado e bem
feito, desenvolvido com afinco pela federação que estipulou como as quartas de
final sendo a meta. O Japão agora tem peças para praticamente todos os setores
e possuindo jogadores de boa qualidade jogando no mais alto nível de
competitividade do esporte, o futebol europeu.



Entretanto, “perrengues” vieram a tentar atrapalhar o time de
Hajime Moriyasu: Yuta Nakayama foi cortado por lesão. Nas últimas semanas,
alguns nomes importantes se lesionaram ou sentiram febre. Ainda assim, em
coletiva na véspera da partida, o comandante afirmou que todos os 26 atletas
estavam aptos para o confronto, tranquilizando os torcedores e fãs. O Japão
possivelmente entraria em campo com as suas melhores opções, formando assim um
time adequado.



No dia seguinte, às 08h39
(horário de Brasília), a escalação nipônica então veio à tona: Takehiro
Tomiyasu, a maior esperança da zaga, não estava nela. Junto dele, outros nomes
foram sentidos, como o bom volante Hidemasa Morita e o atacante Kaoru Mitoma,
uma estrela em ascensão.



Ko Itakura ficou com a vaga do primeiro, fazendo dupla com
Maya Yoshida, enquanto o time agora se distribuía com cinco homens no meio de
campo e sem Mitoma. Ao Tanaka jogaria ao lado de Wataru Endu na “volância” - mesmo
atuando melhor em um 4-3-3 e Takefusa Kubo jogaria no ataque.



📋
Shuichi Gonda; Hiroki
Sakai, Ko Itakura, Maya Yoshida e Yuto Nagatomo; Wataru Endo e Ao Tanaka; Junya
Ito, Daichi Kamada e Takefusa Kubo; Daizen Maeda (4—2—3—1).


O primeiro tempo: Gol
anulado de Maeda, domínio alemão e İlkay Gündoğan abrindo o placar

De pênalti, Gündoğan abriu o placar para a Alemanha
(Foto: Getty Images)

O cenário da partida estava moldado desde muito antes da bola
rolar. Enquanto a posse ficaria sob o controle da Alemanha, o Japão se
arriscaria a se defender com eficiência, fechar os espaços e contra-atacar.

A estratégia asiática inclusive funcionou nos minutos
iniciais. Com todos os jogadores se entregando em campo, os Samurais conseguiam
proteger a área e sair em velocidade; Junya Ito era a principal válvula de
escape e quem mais conseguia “machucar” o adversário. Diante de um oponente com
tanta qualidade e jogadores de renome, a ideia de Moriyasu pareceu minguar
enquanto o tempo passava. O time japonês até conseguiu converter uma
oportunidade, mas a arbitragem anulou o gol corretamente. Era Ito, como de praxe,
quem fazia o serviço. Em contra-golpe, foi ele quem passou para Daizen Maeda
estufar o barbante, mas o atacante estava em posição irregular.

Ao inverso do camisa 14 que entregava o esperado, Takefusa
Kubo não conseguia reter a posse e muito menos conduzi-la para o campo de
ataque, sendo sempre anulado pela marcação, principalmente de Rüdiger, que o “tirava
para nada” com uma tremenda imposição física.

Enquanto o cronômetro avançava, a seleção alemã finalmente
foi se encontrando no jogo, trocando passes e chegando com perigo, até assumir
o controle da partida, pressionando o Japão. Não eram poucas as ocasiões de
perigo. Coube a Gonda e a linha de defesa rebater o máximo possível para
segurar o placar enquanto os contra-ataques já não surtiam efeito; a seleção
pouco tocava na bola enquanto era empurrada para trás.

Foi assim que aos trinta minutos o lance capital da primeira
etapa aconteceu: Kimmich realizou um lançamento precioso encontrando Raum no
lado direito, entrando na área. Sakai havia largado a posição e Ito estava
batido na jogada. Gonda tentou pará-lo, mas acabou cometendo falta dentro da
grande área: na marca da cal, Gündoğan cobrou no meio do gol, colocando os
europeus na frente.











A seleção japonesa não conseguiu responder após o golpe
sofrido. E por pouco não foi pior, pois faltando poucos segundos para o fim dos
quarenta e cinco minutos iniciais, Gnabry aproveitou rebote de Gonda e passou
para Havertz empurrar para o gol vazio, mas a arbitragem, novamente correta,
invalidou o gol, dando um fio de esperança para Moriyasu corrigir os problemas
no vestiário e voltar para entrar para a história do futebol.


O segundo tempo: mexidas
surtem efeito, Doan e Asano brilham e o Japão choca o mundo

(Foto: Getty Images)

Os japoneses retornaram para o último capítulo de sua estreia
no Mundial com uma mudança, Moriyasu mexeu a primeira peça no tabuleiro: Kubo
se despediu com uma apagada atuação para a entrada de Tomiyasu, e agora o Japão
saia do costumeiro 4—2—3—1 para um alternativo 3—4—2—1. Precisando virar a
chave em busca de um resultado positivo, a mexida não surtiu efeito à
princípio. Musiala fez grande jogada individual, mas finalizou para fora. Pouco
depois, Gündoğan carimbou o pé da trave.

Nesta altura do embate, Moriyasu havia recorrido novamente ao
banco de reservas: o desejado Mitoma veio para o lugar de Nagatomo e o
criticado Takuma Asano para o de Maeda.

Como diria o lendário Miyamoto Musashi, “O guerreiro não deve morrer sem antes ter usado suas armas”.

Os Samurais Azuis partiram para o tudo ou nada: era matar ou
morrer. Mitoma era um clarão resplandecente que vinha de um período febril para
ajudar seus companheiros, enquanto Asano, o Jaguar, era o homem “protegido” de
Moriyasu, mas terrivelmente contestado pela torcida. Renovando o fôlego e
mantendo a chama acesa para continuar sonhando, era hora de arriscar para
triunfar.

Exatamente no minuto vinte e cinco o Japão ressurgiu após
quase ter sua sentença decretada: Gonda se redimiu e virou protagonista agora
para o lado certo. Responsável pela penalidade, o goleiro do rebaixado Shimizu
S-Pulse engatou quatro espetaculares defesas em sequência. Jonas Hofmann (que
havia saído do banco), e Gnabry (três vezes), desafiaram o arqueiro japonês,
mas nenhum deles foi capaz de vencê-lo, seja pelo alto ou por baixo. De fora da
área, ou de dentro.

Faltando quinze minutos para o término da partida e após os
milagres de Gonda, Moriyasu se permitiu sonhar ainda mais: Ritsu Doan entrou no
lugar de Ao Tanaka, e pouco depois, Takumi Minamino ocupou a vaga de Hiroki
Sakai.

Se antes Mitoma exercia “quase” que a mesma função de
Nagatomo, agora Ito havia sido puxado para a direita e teria de fazer o mesmo
que Sakai. A seleção japonesa encarava os tetra-campeões de cabeça erguida a
partir de agora, e não havia nada que os europeus pudessem fazer para evitar
isso.

O time havia crescido no jogo, saindo bem para o ataque e
chegando com perigo, criando até mesmo chances claras e as desperdiçando. O
Japão era melhor, mas faltava algo.

















Doan preencheu essa lacuna aos vinte e nove minutos.

Ritsu Doan comemora gol marcado diante da Alemanha
(Foto: Getty Images)

Mitoma acionou Minamino que bateu cruzado para Neuer fornecer
rebote na pequena área; o camisa 8 estava lá, a postos para colocar um sorriso
no rosto de cada japonês. O toque para dentro das redes igualou o contador e
enlouqueceu toda uma torcida que não parava de cantar um minuto sequer e um
povo que não parava de acreditar.



Os Samurais Azuis encheram o peito de confiança. O empate,
dada as circunstâncias, era valioso e para ser extremamente festejado, mas
vencer, e marcar época, era muito melhor e maior.



Menos de dez minutos depois, Itakura realizou um
longo lançamento, esticando a bola para Asano. Uma vez criticado, o Jaguar
naquele instante vestiu a capa de herói e venceu o grandalhão Schlotterbeck
como se fosse o Monte Fuji. O ex-jogador do Sanfrecce Hiroshima disparou com a
bola, entrou na área e nem sequer os puxões do zagueiro foram capazes de
pará-lo, porque cair não era uma opção. A finalização forte e para cima venceu
Neuer, estufou o céu da rede e levou a seleção japonesa ao seu ápice no término
do derradeiro capítulo da história que foi escrita no Estádio Khalifa.

Takuma Asano mostrou que estava em um dia iluminado
(Foto: FIFA World Cup / Twitter)

O Japão ainda resistiu as últimas e desesperadas investidas
alemãs, até mesmo com o goleiro indo a área duas vezes para tentar o empate,
mas ele não veio, 
nem mesmo nos sete minutos de acréscimos assinalados pela
arbitragem.

Vale ressaltar que foi a primeira vez em que o Japão
conseguiu derrotar uma campeã mundial em uma Copa do Mundo, o que certamente
coloca o resultado como um dos maiores feitos da história do futebol masculino
no país.

Dia mágico para os japoneses que estavam no Khalifa Stadium
(Foto: FIFA World Cup / Twitter)

O que aconteceu no vestiário japonês fica no vestiário japonês, mas o que aconteceu em campo no segundo tempo, fica para os anais da história.

Se em abril afirmava-se que o Japão “só venceria a Costa Rica”, bem, agora realmente só resta vencê-la, mas não para terminar a Copa em um honroso 3° lugar, e sim para avançar para as oitavas de final no grupo mais difícil da competição.

A seleção japonesa entra em campo no próximo domingo (27), em jogo válido pela segunda rodada da fase de grupos contra os costa-riquenhos às 07h00 (de Brasília) e podem garantir o passaporte para o mata-mata.







SOBRE O AUTOR:





IGOR FERREIRA (@contactoigor) - Décadas de futebol, uma vida de Fluminense e anos de Sanfrecce Hiroshima. Nas horas vagas, um entusiasta das histórias de J. R. R. Tolkien, George R.R. Martin e C. S. Lewis e um admirador ferrenho do horror cósmico, do inominável e do indizível.
















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