Opinião: Como o Japão poderia competir com Estados Unidos e Arábia Saudita?
Com Messi levando seus antigos companheiros de Barcelona para a MLS e CR7 e Neymar se tornando o carro-chefe da Saudi Pro League, como a J.League pode se tornar a terceira nova força do ‘futebol alternativo’.
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| Foto: Japão FC |
É uma nova era para o futebol mundial, enquanto a nova geração de craques começa a brilhar nos gramados europeus, a geração de estrelas em que a maioria de nós estamos acostumados deu o start do stint final das carreiras.
Se tornou comum a longevidade que jogadores de alto nível consegue atingir, se antes era quase impossível vermos um atleta chegar aos 35 anos ainda atuando, hoje em dia é extremamente comum que os jogadores ultrapassem essa idade. Rogerio Ceni parou apenas aos 42, Buffon aos 45 e Kazu, com os incríveis 57 anos, seguirá no Oliveirense de Portugal.
Além da idade avançada para o futebol, essas lendas têm em comum o nível de atuação. Nenhum deles atua, ou atuou, nas principais divisões europeias. O chamado “top five” se tornou exigente demais até para seres de outra dimensão como Cristiano Ronaldo e Messi, a Europa fechou as portas para o português, enquanto o argentino fechou as portas para a Europa.
O nível de competitividade e exigência não contempla mais esses jogadores, que preferem se sentir realizados de outras formas, seja atuando pelo clube de coração, tendo maior tranquilidade com a família, ou ganhando uma enormidade de dinheiro. É neste quesito que surgem as ligas emergentes do futebol mundial, a MLS e a Saudi Pro League.
Vamos falar primeiro da estratégia árabe. Usando dinheiro quase infinito oriundo do petróleo e buscando limpar o nome do país na comunidade internacional, a Arábia Saudita criou um fundo de investimento esportivo que detém ações dos 4 principais clubes do país (Al Nassr, Al Hilal, Al Ittihad e Al Ahli), além de auxiliar outros clubes como o Al Ettifaq. Este fundo, mantido por dinheiro estatal, é o responsável pelas chegadas de craques mundiais vindos do futebol europeu, como o próprio CR7, Koulibaly, Mendy, Benzema, Kanté e agora Neymar trocaram o glamour europeu pelo dinheiro infinito árabe.
É uma clara estratégia de injeção monetária estatal para atrair os principais nomes globais, sejam atletas ou empresas, visando, em um futuro próximo, o objetivo de que a Saudi Pro League se mantenha sozinha, enquanto desenvolve o futebol saudita. Existem, a partir deste ponto, três caminhos que podem ser o fim da trilha saudita; o caminho de sucesso, onde todo o investimento dá resultado e torna a Arábia Saudita em uma potência do futebol, o caminho da China, onde mesmo com o investimento, o projeto fracassa e o futebol cai em ostracismo no país e o caminho pelo qual pelo qual passou o Japão, onde existe uma ascensão local grande, mas não o suficiente no âmbito internacional, ajudando o país a se tornar uma potência asiática, mas não mundial.
A chegada de Messi e a nova tentativa dos Estados Unidos em expandir seu futebol
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| Messi sendo apresentando no Inter Miami Foto: AFP |
Do outro lado do mundo, literalmente, estão os Estados Unidos, que iniciam a 3ª fase, ou tentativa, de expansão do futebol na maior economia do mundo. Em um primeiro momento, ninguém menos que o Rei, Edson Arantes do Nascimento, desbravou o futebol estadunidense junto com Carlos Alberto Torres e Franz Beckenbauer, por exemplo. O projeto até teve um certo apoio e conseguiu reviver a modalidade no país, mas por anos não foi abraçada pelos homens tal qual o basquete, o baseball ou o futebol americano.
Foi abraçada pelas mulheres, tornando os Estados Unidos em uma espécie de “Brasil do Futebol Feminino”, enquanto o Brasil na mesma modalidade se assemelha aos americanos no masculino.
Anos depois, já na “era MLS”, uma nova fase do processo norte americano. Beckham, Pirlo, Gerrard, Lampard, Ibrahimovic e Kaká, deram à Major League Soccer a sobrevida que ela precisava. Novas regras, uma nova forma de marketing voltada para o potencial único dos Estados Unidos de, literalmente, transformar qualquer coisa em um grande espetáculo e, inevitavelmente, uma grande máquina de gerar dinheiro.
Já há alguns anos, a MLS deixou de ser destino apenas dos jogadores em fase final da carreira e se tornou produtora e revendedora de potenciais futuros craques. Existe sim, neste momento, uma real preocupação mexicana em perder a hegemonia dentro das competições de clubes da Concacaf, tal qual o Seattle Sounders faturou a última edição da “ConcaChampions”.
A liga se fortalece ainda mais com a chegada de Messi, com um contrato bilionário para agora e para o pós-carreira. Lionel se torna a face da MLS em todos os sentidos, seja no comercial, seja no esportivo.
A Apple, detentora dos direitos globais da MLS, já criou um pacote exclusivo para que o mundo possa acompanhar o Inter Miami de Messi e companhia, enquanto a Conmebol firmou uma parceria que parecia impossível e liberou que os clubes da Concacaf se juntem à Copa Libertadores a partir de 2024, criando a tão sonhada Liga dos Campeões das Américas. Este é o chamado ‘efeito Messi’.
Não apenas isso, mas o argentino já começou a trabalhar e trouxe ex-companheiros para atuar com ele na Flórida. Busquets foi o primeiro, Jordi Alba veio logo em seguida, e até mesmo Luís Suárez cogita devolver tudo o que recebeu do Grêmio até agora para deixar o Brasileirão e aterrissar na MLS.
Os Estados Unidos também se tornam centro para atração de outros jogadores e é natural, hoje, que um jogador prefira a MLS à Eredivise, ou até mesmo o Brasileirão, por exemplo.
E os americanos não são bobos, já estão na terceira fase de popularização, um plano construído basicamente através do marketing e do poder de alcance dos produtos americanos. O chamado “imperialismo americano” não se trata apenas de política. A cultura estadunidense está, e sempre esteve, entranhada no modo de vida ocidental, a proximidade com a Europa e com o resto da América dão à MLS um poder de visualização visto apenas pela Premier League e por La Liga dos anos de Messi e Cristiano no mesmo torneio.
Qual caminho o Japão deve trilhar para voltar uma das principais forças do mercado?
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| Zico sendo apresentando no Sumitomo Metals, que viria a se tornar no Kashima Antlers Foto: Getty Images |
Mas como o Japão se tornaria a terceira força do mercado emergente? Bom, saiba caro leitor, que o Japão já foi a principal força do mercado emergente do futebol.
Isso aconteceu durante o que eu enxergo como a primeira fase da popularização do futebol no Japão. Tudo começou com o Zico, Lineker e outros craques em fase final da carreira, que toparam o desafio de lançar a liga de futebol japonesa, a J.League. Isso em 1993!
O plano deu muito certo e a J.League deu grandes frutos para o futebol japonês, tanto esportivamente, quanto comercialmente. Desde 1993, o Japão se tornou potência o futebol asiático, não deixou de ir a uma Copa do Mundo sequer. Em 2022 venceu Alemanha e Espanha, se classificando em primeiro lugar no que muitos chamavam de “Grupo da Morte”.
O Japão teve inúmeros craques atuado no país, como Dunga, que disputou uma final de Copa atuando no Japão, pelo Júbilo Iwata, por onde também passou Luiz Felipe Scolari, logo antes de se juntar ao Palmeiras pela primeira vez. Outro lendário comandante que passou pela J.League nos anos 1990, foi o francês Arsene Wenger, que dirigiu o Nagoya Grampus como última experiência, antes de passar 25 anos no comando do Arsenal.
Os anos 90 para o futebol japonês representaram o início de um projeto tentador e que é possível de se comparar com o projeto americano para o futebol, um grande investimento não de dinheiro, mas de marketing cultural que atraiu jogadores para a liga. Recomendo demais que leiam o livro ‘Samurais Azuis: A História do Futebol no Japão’, escrito pelo jornalista Tiago Bontempo, uma referência quando o assunto é futebol nipônico.
Após esse período inicial forte, a J.League entrou em um processo de estabilidade onde, como citei, conseguiu fazer o esporte crescer no país, mas não foi o suficiente para se tornar uma potência global. Com isso em mente, e com a China começando seus investimentos massivos, o Japão não ficou parado e fez como a MLS trazendo grandes jogadores de renome para ajudarem a liga a dar o respiro necessário.
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| Iniesta sendo apresentado no Vissel Kobe, em 2018 Foto: Getty Images |
Foi nesta época que chegaram Andrés Iniesta, David Villa e Lukas Podolski ao Vissel Kobe, Fernando Torres se uniu ao Sagan Tosu, Diego Forlán desembarcou em Osaka para ser a cara do Cerezo. Tudo isso enquanto revelava a geração que vemos hoje, com Kaoru Mitoma surgindo no Kawasaki Frontale, Ritsu Doan desfilando pelo Gamba Osaka e Ko Itakura dando os primeiros passos pelo Vegalta Sendai.
Agora chegou o momento do Japão dar o próximo passo. Durante essa era, que podemos simbolizar em Iniesta, a J.League projetou força para os países próximos e hoje é assistida pelo Extremo Oriente e Sudeste Asiático. O que a Premier League é para a Europa, o Brasileirão é para a América do Sul, o que os Sauditas querem ser para o Oriente Médio e os americanos para a América do Norte e Central, o Japão já é para o Oriente distante, uma força!
Porém, é chegado o momento de expandir, de usar o que o Japão tem de melhor e o que os japoneses se sobressaem aos árabes, pelo menos. História e Cultura!
O primeiro passo para que a J.League emerja como rival à MLS e a Saudi Pro League é, por incrível que pareça, o Brasil! Somos o país com a maior colônia japonesa do mundo, enquanto também somos a maior colônia não asiática do Japão. Nossas relações com os japoneses já transcendem as gerações, seja com as artes marciais, seja com os animes.
Hoje o Brasil tem 51% dos estrangeiros dentro da primeira divisão do Japão! É fundamental que a J.League abra suas portas para o mercado consumidor do Brasil e tenha nos brasileiros, a porta de entrada para a América do Sul.
Para isso é preciso investimento e investimento pesado, não digo de convencer o Neymar a atuar pelo Yokohama Marinos, até porque ele já está rumando ao Al Hilal, mas precisa de uma nova cara. Alguém para estar lá e trazer os companheiros e rivais, como Messi e Cristiano estão fazendo. Fora Neymar, não vejo um jogador deste nível que estaria interessado em deixar a bomba de pressão e exigência da Europa, por isso sempre o cito aqui.
Além disso, claro que existem outros jogadores de renome que poderiam servir como “a nova cara da J.League”, mas como seria o impacto para a liga no exterior? Son, por exemplo, ajudaria com o mercado coreano, mas é algo que a liga japonesa já possui. Precisaria de um grande nome reconhecido nas Américas e na Europa para, assim como a MLS e a Liga Saudita, criar o interesse por acompanhar esses campeonatos. Hoje, além do Neymar, os únicos que conseguiriam isso são Mbappé e Haaland, mas estão longe do patamar de trocar a Europa pela Ásia.
Mas é preciso dizer que o próprio Iniesta se apaixonou pelo estilo de vida no Japão, uma sociedade única que valoriza o respeito e, embora existam cobranças, muito raramente elas extrapolam o limite do pessoal, como vemos no próprio PSG e aqui no Brasil. Por isso o Japão precisa apostar mais nesse ponto de convencimento!
Claro que essa nova movimentação grandiosa da Arábia Saudita vai ajudar a J.League, vai tornar a Ásia em um continente competitivos, onde alguns jogadores de segunda ou terceira prateleira, que não terão espaço na Saudi Pro League, possam mirar a J.League como opção e é neste momento que o Japão tem que estar preparado para dar o bote. Se o Japão não tiver a coragem de investir e fazer a J.League dar o salto da terceira fase, talvez seja engolido pela Arábia Saudita nos próximos anos.
Uma coisa é certa, é quase impossível competir financeiramente com a maior economia do mundo ou com o dinheiro infinito do petróleo, mas o Japão tem competência e organização para construir uma liga que bata de frente com a MLS e a liga Saudita, resta saber se a J.League e os clubes que a representam estão dispostos a fazer o sacrifício que precisar ser feito para que o Japão seja a terceira potência emergente do futebol moderno.
MATHEUS BRAGA | @oMatheusBPaes - Formado em Jornalismo pelo Mackenzie, pós-graduando em Jornalismo Esportivo pela Cásper Líbero. Consumidor de light novels, mangás e animes e apaixonado pela cultura oriental. |





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