Michael Skibbe: a revitalização do Sanfrecce Hiroshima em 2022
Técnico
alemão não “revolucionou” o Três Flechas, mas recolocou o clube nos trilhos e
encheu o torcedor de orgulho
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| Michael Skibbe levantando a taça de campeão da Levain Cup, conquistada pelo Três Flechas em 2022 (Foto: Getty Images) |
Um dos grandes técnicos da Terra do Sol Nascente na última temporada, o treinador de 57 anos “recuperou” o Sanfrecce Hiroshima, fazendo os seus adeptos voltarem a sentir um gosto que não sentiam há alguns anos — o último título do clube havia sido em 2016, uma Supercopa do Japão. Com um ótimo trabalho, ele foi um dos responsáveis por fazer o Três Flechas fechar 2022 no verde e vislumbrar um 2023 ainda mais saboroso.
Mas analisando agora, ao fim do ano que se encerrou, as coisas podem parecer simples, bem satisfatórias ao clube, e que nada aconteceu antes da chegada do alemão. Mas o cenário não foi bem assim. Quem conheceu o futebol japonês por volta do início dos anos 2010 acabou se deparando com um Sanfrecce Hiroshima vencedor. Foram três títulos da J-League em um curto espaço de tempo (2012, 2013 e 2015) e mais três canecos da Supercopa do Japão (2013, 2014 e 2016), com direito a duas participações no Mundial de Clubes da FIFA (2012 e 2015).
O farto período teve toques influentes e importantíssimos do sérvio Mihailo Petrović que trabalhou no clube entre os anos de 2006 e 2011. As glórias, todavia, vieram pelas mãos de Hajime Moriyasu, hoje comandante dos Samurais Azuis e de contrato renovado com o selecionado nacional para mais um ciclo. De 2012 a 2017 ele mais do que honrou o clube pelo qual foi jogador, agora como treinador.
Em situação delicada, o novo treinador pouco pôde trazer de novidade. Pragmático, realizou alguns ajustes na equipe, a deixando mais “defensiva” e menos vulnerável aos adversários, fato que vinha desencadeando uma série de erros por parte dos jogadores daquela região do campo. Agora com quatro homens atrás, o Sanfrecce Hiroshima conseguiu pontuar o suficiente na segunda metade da J-League e terminou o ano uma posição acima da zona de rebaixamento.
No entanto, o contrato de Jönsson não foi renovado pelo clube, que teria para o ano seguinte, um comando ainda mais “resguardado” e de perfil absolutamente “defensivista”.
Hiroshi Jofuku e o
trabalho a longo prazo
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| Foto: Getty Images |
O nome escolhido não parecia unânime; razoavelmente surpreendente. Taxado de “retranqueiro” e sendo a cara do dito “futebol feio”, Jofuku vinha de um trabalho fraco na capital com o FC Tokyo, mas havia criado “bagagem” dentro do futebol japonês como um todo, além de campanhas elogiáveis com o modesto Ventforet Kofu. Ele chegava a Hiroshima respaldado por tais fatos.
Mas para quem havia sentido o perigo do descenso na última temporada, a estética pouco importava. O time violeta desde 2009 não terminava um campeonato na segunda metade da tabela como em 2017. Independente da forma, a meta agora era “dar a volta por cima”.
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| Foto: Getty Images |
Sob a batuta de Jofuku, esqueça qualquer filosofia futebolística, discursos longos, palavras bonitas ou ideias de jogo complexas e mirabolantes. O Sanfre fazia o básico: defendia-se bem e atacava com eficiência. O treinador tinha recuperado o sistema de 3—5—1—1 de tempos passados, estilo que alguns jogadores já estavam adaptados — além disso, diversos nomes já haviam tido contato com o recém contratado, como Sho Sasaki e Yoshifumi Kashiwa, negociados junto ao Ventforet Kofu. Além deles, o atacante brasileiro Patric estava no mesmo Kofu quando Jofuku esteve lá; Sho Inagaki chegou a atuar sob as ordens do treinador no mesmo clube.
Mesmo sem brilhar nas Copas, a equipe violeta realizou uma J-League de destaque, e chegou a sonhar com o título nacional. Considerado incógnita quando a temporada começou, o “Jofukubol” ganhou forma, e terminou o certame na segunda colocação.
O primeiro turno foi um completo domínio, se assim podemos dizer. Com uma defesa quase intransponível, o Sanfrecce Hiroshima chegou a sofrer somente oito (!) gols em dezessete partidas, sendo disparada a melhor da competição. Com Takuto Hayashi brilhando na meta e Sho Sasaki “voando” na defesa, parecia um sacrifício para os oponentes atravessarem a barreira e púrpura montada por Jofuku. Foram treze vitórias na metade inicial da liga — dois empates e duas derrotas. Somados 41 pontos, a liderança era um fato incontestável: sete pontos de vantagem em relação ao segundo colocado, o FC Tokyo.
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| Foto: Getty Images |
No entanto, nem tudo são flores. Com a pausa para a Copa do Mundo disputada na Rússia, a equipe não conseguiu retomar o bom momento. O elenco não repetiu o primeiro semestre, a defesa não funcionava como antes e os resultados já não vinham. Para o azar do clube, ainda havia o rolo compressor do futebol local: o Kawasaki Frontale disparou, deixou ambos os líderes “comendo poeira” e abocanhou a liderança para não largar mais, conquistando assim um bi-campeonato antecipado.
A primeira temporada de Jofuku em seu novo time na J-League terminou com um digno vice-campeonato, mas que por pouco também não foi por “água abaixo”, já que as sequências negativas deixaram o Sanfre com concorrência logo atrás; ainda assim, o Três Flechas conseguiu terminar o ano com cinquenta e sete pontos na segunda colocação, garantindo uma vaga na Liga dos Campeões do ano seguinte.
Patric era o principal nome do elenco, tendo anotado vinte gols naquela edição de J-League — ele só perdeu para o compatriota Jô, do Nagoya Grampus, que havia marcado vinte e quatro. Kosei Shibasaki distribuiu quase dez assistências e também se destacou.
Resultados caem, mas
Jofuku adiciona melhorias ofensivas
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| Foto: Getty Images |
Jofuku seguiu no comando técnico da equipe de Hiroshima — justo. Em 2018, o
time havia jogado também no 4—4—2, mas voltar para o sistema passado era uma
ideia planejada. Além disso, Keisuke Osako, à época considerado uma promessa do
país, assumia a meta violeta, enquanto Sasaki continuava sendo um dos nomes de
relevância da equipe.
O Sanfrecce Hiroshima chegou às quartas de final da Copa da
Liga, na quarta fase da Copa do Imperador e fez uma boa fase de grupos na Liga
dos Campeões, mas caiu diante do Kashima Antlers nas oitavas de final devido ao
critério de desempate.
No campeonato nacional, a equipe terminou abaixo do
conquistado na temporada passada; em sexto. Mas agora o time mostrava um pouco
mais de variedade em seu jogo, e o técnico, versatilidade, porque o Três
Flechas, apesar do plantel limitado, conseguia jogar de forma mais ofensiva
muitas vezes. Com Hayao Kawabe perigoso, Tsukasa Morishima mostrando qualidade,
o ano de 2020 que se aproximava dava indícios de ser mais esperançoso para o
clube.
Jofuku decepciona, mas o cargo é mantido
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| Foto: Getty Images |
olhares; pela primeira vez havia uma ilusão no ar. Em 2018 o time havia batido
na trave. Em 2019 o time teve uma queda nos resultados, mas mostrava ter um
norte, misturando a solidez defensiva com recursos ofensivos. Então o 2020
havia chegado: o elenco era sempre limitado, mas havia um trabalho sólido, um
boa retaguarda, reforços pontuais e valores de frente sendo agregados, além de
garotos surgindo no time principal.
Quando a bola rolou no novo ano, ainda assim as coisas não
caminharam como se era esperado. Sinônimo de monotonia, o Sanfre não emplacou
em nenhum momento da temporada, conseguindo até mesmo regredir em certos momentos
em relação a 2019, terminando a J-League abaixo ainda mais, agora na oitava
posição.
Keisuke Osako não respondeu a altura. Ezequiel, reforço “bem
falado”, não mostrou a que veio. Pelo outro lado, Sho Sasaki seguiu muito bem,
e agora tinha a companhia de Hayato Araki, que mostrava um grande potencial —
mesmo para Hayao Kawabe e o experiente Toshihiro Aoyama, que conseguiam
entregar algo ao time. E se os Três Flechas já não tinha Patric, os também
brasileiros Leandro Pereira (ou Banana) e Douglas Vieira conseguiam contribuir
com alguns gols e assistências.
Sem brilho, Jofuku não dá respostas e se despede
do clube
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| Foto: Getty Images |
Mesmo com um decepcionante 2020, Jofuku ainda estava na área
técnica do Sanfrecce Hiroshima no ano seguinte e caminhando para a sua quarta
temporada no comando.
Pode-se dizer que havia um padrão — negativo — no trabalho do
treinador agora. Durante todo esse tempo, o Sanfre vinha piorando em suas
posições a cada ano, e esse plano não só foi mantido em 2021 como foi
aumentado, porque o clube alcançou o ápice da mediocridade e conseguiu de novo
terminar em uma posição inferior passada a J-League anterior; o time ainda
sofreu uma derrota histórica e vexaminosa na segunda fase da Copa do Imperador
ao perder para o diminuto Ococias Kyoto, além de ruir na fase de grupos da
outra Copa.
Em campo o time não tinha mais Leandro Pereira, e seu
substituto era um outro brasileiro, Júnior Santos, que se esforçava para
ajudar. Sho Sasaki repetiu o bom desempenho, e além dele, Hayao Kawabe
exibiu-se em ótima forma, o que o levou a ser negociado com o futebol europeu,
indo para o Grasshopper (SUÍ).
O ano ficou marcado também pelo retorno do ídolo Tsukasa
Shiotani e do garoto Shun Ayukawa, que agora surgia como um nome jovem e importante
para o futuro.
Indo de mal a pior, Jofuku deixou o Sanfrecce Hiroshima perto
do fim do campeonato, e Kentaro Sawada, como interino, concluiu a competição em
que o clube terminou em décimo primeiro.
Com Michael Skibbe, o Sanfrecce Hiroshima volta
a mostrar forças
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| Foto: Getty Images |
A resposta para a saída do treinador foi rápida. O eleito
para o cargo chamava-se Michael Skibbe e vinha da Alemanha — nós destrinchamos
a carreira do treinador antes, e você pode conferir clicando aqui).
Ele estava no Al-Ain, da Arábia Saudita antes de ser contratado.
Como de praxe, o Sanfrecce Hiroshima entrou em 2022 sem “gastar
tubos” de dinheiro. Sempre com os pés no chão e mantendo o elenco humilde, o
time titular era parcialmente o mesmo. Modesto, mas competente, o alemão “expurgou
o mal” que rodeava o clube, sempre caindo pelas tabelas — literalmente — ano
após ano, entregando uma temporada digna de elogios para todos os envolvidos.
O 3—4—2—1 ainda estava lá, é verdade, e a estrutura, de um
modo geral, não era alterada; tampouco as peças no tabuleiro, e algumas adições
valiosas chegavam, caso de Gakuto Notsuda, ex-jogador da base do clube que
retornava após um bom período na J2 — o meio-campista desfilou em campo e
tornava-se a cada rodada uma peça-chave para o jogo fluir. Makoto Mitsuda,
outro jovem, também deu “as caras” e mostrou potencial, tendo marcado nove gols
na J-League em questão e sendo o artilheiro do Três Flechas na edição.
Regular, Sho Sasaki continua sendo um dos principais
jogadores do Sanfre. Tsukasa Morishima, o camisa dez, cresceu ainda mais, e
Tomoya Fujii também apareceu bem.
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| Gakuto Notsuda foi peça-chave do esquema tático construído por Michael Skibbe |
Para os que imaginavam que o Três Flechas não faria um grande
ano após o agonizante 2021, a maré havia mudado. O Sanfrecce fez uma J-League
excelente, muito acima das expectativas, chegando a ter possibilidades reais de
título durante o torneio, mas que acabaram arrasadas em comparação ao poderio
de Kawasaki e Frontale e Yokohama F. Marinos; ainda assim, a equipe deu
demonstrações de força durante todo o ano, frequentando o pelotão de frente com
total mérito. O terceiro lugar, fechando o pódio, conquistando uma vaga na Liga
dos Campeões, foi de uma grande justiça.
Mas o ano poderia ser melhor para o clube de Hiroshima. Nas
Copas, o auge estava sendo aguardado: finalista na Copa da Liga e também na
Copa do Imperador, o Sanfre estava com a “faca nos dentes” para dar fim a um
longo jejum.
Sem levantar um troféu desde 2016 e amargando o pesadelo de
somar sete vices em sete finais de Copas disputadas desde a profissionalização,
Skibbe e seus comandados tinham uma missão: trazer uma taça para casa e resgatar
um sentimento no torcedor roxo. Eles conseguiram, mas bateram na trave uma
semana antes, na primeira tentativa.
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| Foto: Getty Images |
No dia dezesseis de outubro o Sanfrecce Hiroshima realizou a
primeira das finais, mas o objetivo não pôde ser concluído. Não porque uma das
maiores zebras da história do futebol japonês se fez presente.
Pela Copa do Imperador, o Três Flechas sucumbiu perante o
Ventforet Kobu, pequeno clube da J2 que sequer vivia uma boa colocação na
divisão em questão. Favorito, o time da elite do país saiu atrás do placar,
buscou o empate com Takumu Kawamura aos quarenta minutos da etapa final para
manter as chances vivas. O cipriota Pieros Sotiriou passou perto de virar o
placar nos momentos finais, mas não conseguiu.
A prorrogação passou. As penalidades chegaram. Na marca da
cal, o próprio Kawamura seguiu aquela máxima do futebol, infelizmente para o
lado do Sanfre: quem costuma jogar bem — ou fazer gol, desperdiça o seu
pênalti. Ele foi o único a falhar pelo seu time, enquanto Hideomi Yamamoto
estufava as redes, dando o histórico título ao Ventforet Kofu. Para o time de
Hiroshima, sobrou o oitavo vice na oitava final — mas não havia tempo para
lamentar. Em uma semana aqueles mesmos jogadores estariam em campo e jogando
por mais uma taça. Dessa vez o sonho não seria desperdiçado.
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| Foto: Sanfrecce Hiroshima Instagram |
O melhor
estava guardado para a última partida do ano. A final de número nove. A
oportunidade de acabar com a “seca”. O roteiro foi emocionante, sem nenhum
defeito para o torcedor. O adversário da vez era o Cerezo Osaka e o objetivo a
Copa da Liga.
Mutsuki Kato
abriu o placar para a Cerejeira logo no início do segundo tempo. O filme se
repetia. O primeiro ato era correr atrás do placar. Os deuses do futebol
estavam agitados naquele dia. Talvez seja por isso que o zagueiro croata Matej
Jonjić tenha sido expulso aos trinta e cinco minutos, alardeando os
espectadores e deixando o time de Osaka com um homem a menos em campo. O
segundo ato, ficando a um passo da conclusão. Pieros Sotiriou, que ficou no
quase na decisão passada, agora balançava as redes em cobrança de pênalti aos
cinquenta e um minutos.
Mas o
roteiro seguia o mesmo. Buscar o empate e conquistá-lo. Faltava o terceiro ato,
o clímax, o golpe final. O plot-twist
para vermos o desfecho.
Aos
cinquenta e seis minutos o cipriota assinou seu nome na história do Sanfrecce
Hiroshima: com uma cabeçada fatal, o Três Flechas virou a partida e explodiu o
torcedor em êxtase, tirando a “zica” e levando o clube a ser campeão após seis
anos e uma coleção de vices desde a profissionalização em 1992.
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| Foto: Sanfrecce Hiroshima / Instagram |
Não é possível cravar o que acontecerá daqui para a frente.
Nem com o Sanfrecce Hiroshima, e muito menos com Michael Skibbe. Não foi fácil
dar a volta por cima, mas o clube conseguiu. O “casamento” rendeu frutos, e
pode melhorar ainda mais. Com a vinda de um possível estádio em um breve
futuro, o Três Flechas pode fixar-se com ainda mais estabilidade na prateleira
de cima do futebol japonês.
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| Foto: J. League |
Com o técnico do ano, o Sanfrecce Hiroshima também poderá
disputar a Liga dos Campeões após três temporadas de ausência no torneio
internacional.
















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