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Samurais à brasileira: relembre todos os brasileiros que já defenderam as cores da seleção japonesa

Ás vésperas de mais um confronto entre Brasil e Japão, relembramos os jogadores brasileiros que já atuaram com a camisa dos Samurais Azuis

O brasileiro naturalizado japonês Alex Santos cumprimenta Ronaldo em duelo entre Brasil e Japão na Copa do Mundo de 2006
(Foto: Getty Images)

Nesta segunda-feira (06) a seleção japonesa enfrentará o Brasil no Estádio Nacional de Tóquio em confronto amistoso preparatório visando a Copa do Mundo do Catar no final do ano. A seleção comandada por Hajime Moriyasu (53 anos) não perde desde 7 de outubro do ano passado, em derrota para a Arábia Saudita por 1x0 válido pelas eliminatórias para o Mundial. Nesse período de invencibilidade, a seleção nipônica conseguiu sete vitórias e um empate, destacando-se a vitória conquistada contra o Paraguai por 4x1 na última quinta-feira. Porém, nesta coluna de hoje não falaremos sobre o jogo que irá acontecer, mas sim sobre o passado. 

Conhecer e saber que Brasil e Japão possuem uma relação migratória histórica e fantástica não é novidade para ninguém. Também não é nenhuma surpresa saber que o futebol japonês foi altamente influenciado pelo futebol brasileiro, destacando-se a figura de Zico, ídolo do Flamengo e do Kashima Antlers, onde exerce o papel de conselheiro do clube atualmente. O que abordaremos nessa coluna poderia ser sobre o processo migratório, sobre grandes ídolos brasileiros que atuaram na terra do sol nascente ou até mesmo sobre Zico. No entanto falaremos sobre um pouquinho de tudo, já que iremos visitar a história da seleção japonesa e de brasileiros que atuaram por ela.


Nelson Yoshimura; o pioneiro

Nelson Yoshimura com a camisa do Yanmar Diesel
(Foto: Getty Images)
Em 1947, nascia em Tupã, cidade do interior do estado de São Paulo - local onde boa parte dos japoneses “fincaram raízes” algumas décadas anteriores - Nelson Yoshimura. Filho de japoneses, Nelson começou a jogar futebol em Adamantina, também no interior de São Paulo, mas foi na capital onde ele “apareceu”. 

Disputando o Campeonato Nissei de 1966, pelo time de várzea Grêmio Recreativo Tóquio, acabou se destacando e chamou a atenção do presidente da Yanmar, empresa japonesa de motor a diesel. Na época, é importante recordamos, o futebol japonês vivia a “Era do Amadorismo” e Nelson não queria ir, porém foi convencido pelo pai e partiu para o outro lado do mundo. 

No Yanmar Diesel, que posteriormente se tornaria o Cerezo Osaka, jogou de 1967 até 1980. Foi lá que Nelson se tornou Daishiro, foi lá que Daishiro se tornou um ídolo do futebol japonês. Após sua naturalização, em 1970, jogou pela seleção japonesa por 46 jogos e marcou sete gols. O rápido meia-direita disputou com a seleção nipônica as eliminatórias para as Copas do Mundo de 1974 e 1978 e também as eliminatórias dos jogos olímpicos de 1972 e 1976, porém não conseguiu a classificação nessas frentes. 

Nelson Yoshimura (á direita), ao lado do também brasileiro Jairo Matos, em seus tempos de Yanmar Diesel
(Foto: reprodução Instagram / Tomikoshi Photography)
Como jogador do Yanmar, Daishiro Yoshimura marcou 30 gols em 189 jogos e foi campeão da Japan Soccer League (JSL), antecessora da atual J-League, por quatro vezes, além de ter levantado o caneco três vezes da Copa do Imperador. 

Após a carreira como jogador, Yoshimura trabalhou como técnico no próprio Yanmar, onde foi alçado como técnico principal, onde ficou entre 1990 e 1993. Após esse período, continuou trabalhando como “olheiro” do Cerezo Osaka. 

Daishiro “Nelson” Yoshimura foi o primeiro jogador brasileiro da história da seleção japonesa e possui grande importância para o início do desenvolvimento do futebol no outro lado do mundo. Infelizmente, Nelson acabou falecendo em primeiro de novembro de 2003, devido a uma hemorragia cerebral, aos 56 anos. Em 2010, foi eleito para o Hall da Fama do futebol japonês, uma homenagem póstuma para um jogador de várzea no Brasil para um ídolo do futebol da Terra do Sol Nascente.


George Yonashiro

George Yonashiro atuando com a camisa do Yomiuri Club em 1984
(Foto: Getty Images)
George Yonashiro é mais um nissei, descendentes de segunda geração, que brilhou em terras japonesas na “Era do Amadorismo”. Nascido no estado de São Paulo em 1950. Iniciou a carreira em solo japonês, em 1972, quando entrou no Yomiuri, atual Tokyo Verdy. Foi nesse clube, o único em sua carreira como jogador, que George alcançou a glória no futebol japonês. 

Durante 24 anos, entre 1972 e 1986, Yonashiro fez 239 partidas e marcou 92 gols pelo Yomiuri, nome relacionado com o Yomiuri Group, um dos maiores conglomerados de mídia no Japão. Além de gols, o nipo-brasileiro ainda conquistou alguns troféus, como a JSL, Copa do Imperador e foi eleito para o “melhor onze” da temporada em cinco oportunidades. 

Após conseguir a cidadania japonesa no início de 1985, George foi convocado alguns meses depois, mesmo já aos 34 anos de idade. Pelos Samurais Azuis foram apenas dois jogos, porém o suficiente para marcar seu nome na história como segundo brasileiro a jogar pela seleção nipônica.

George Yonashiro atuando como técnico do Kyoto Purple Sanga, atual Kyoto Sanga
(Foto: Getty Images)

Após a aposentadoria como jogador, Yonashiro virou técnico do próprio Yomiuri, em 1986, onde ficou por quatro temporadas e colecionou alguns títulos, entre eles o “Asian Club Championship” de 1987, a antecessora da atual Liga dos Campeões da Ásia. Nesse período acabou treinando seu antigo companheiro de time e também “duplamente patriota”, que falaremos a seguir. 

Antes de passar para o próximo nome nessa seleta lista, é preciso salientar que George Yonashiro, atualmente com 71 anos, continuou sua carreira como treinador, passando por Kyoto Sanga, FC Ryukyu, Giravanz Kitakyushu, Blaublitz Akita e J.FC Miyazaki, este último trabalho entre 2017 e 2019. Atualmente está sem clube, porém continua sendo e sempre será uma das lendas brasileiras do outro lado do planeta.


Ruy Ramos

Ruy Ramos com a camisa do Verdy Kawasaki
(Foto: reprodução internet)

Se os dois primeiros brasileiros dessa lista possuíam raízes nipônicas muito claras e delimitadas, Ruy Gonçalves Ramos Sobrinho, mais conhecido como Ruy Ramos, é um caso no mínimo curioso. O meio campista e antigo camisa 10 dos Samurais Azuis nasceu em Mendes no estado do Rio de Janeiro em 1957. 

Ainda muito jovem, acabou se mudando para São Paulo devido a questões familiares e foi na capital paulista onde deu seus primeiros passos como jogador. Jogou pelo Black Power e pelo Saad, de São Caetano. Porém, sem chances nos clubes profissionais, acabou indo parar no Japão para jogar no Yomiuri, aos 20 anos. 

O início, como era de se imaginar, não foi simples, devido a problemas naturais de adaptação. Em 1978, acabou sendo suspenso por um ano, após uma briga em um jogo. A história, que parecia que iria dar errado, começou a mudar em 1979, quando o agora meia, o antigo zagueiro de tempos de Brasil, foi o artilheiro e líder de assistências. 

Ruy Ramos ficou no Yomiuri - que depois se tornaria Verdy Kawasaki - entre 1977-1996 e depois de uma temporada no Kyoto Purple Sanga, atual Kyoto Sanga FC, voltou para o Verdy para encerrar a carreira, em 1998. Nesse longo período em terras nipônicas, viu a criação da J-League, que finalizou a “Era Amadora” do futebol japonês e jogou pelos Samurai Azuis em 32 oportunidades.

Ruy Ramos sentiu na pele a desclassificação da seleção japonesa diante de Israel
(Foto: reprodução internet)

Ramos, camisa 10 da seleção japonesa, estava em campo no famoso desastre dos Samurais Azuis de 1993, denominado como a “Agonia de Doha”. Eu poderia escrever sobre o que foi esse evento, mas resumidamente foi a não classificação do Japão para a Copa do Mundo de 1994, onde a seleção nipônica dependia apenas de si e acabou fracassando. Uma curiosidade acerca desse momento especifico e que não possui nenhuma relação com essa coluna, é a maneira que eu – o redator – ouvi pela primeira vez sobre esse fato. Foi durante o anime Uchuu Kyoudai (Space Brothers) onde esse evento é citado logo nos primeiros episódios que foi onde eu acabei tomando conhecimento do famosa “Agonia de Doha”. 

Voltando para o que interessa, Ruy Ramos atuou pela seleção japonesa entre 1990 e 1995, onde acabou virando um ídolo e uma lenda do futebol japonês, visto que foi um dos protagonistas do primeiro título continental da história do Japão, a Copa da Ásia de 1992. Porém, suas maiores glórias realmente foram no Yomiuri/Verdy Kawasaki, onde conquistou cinco vezes a JSL, duas vezes a J1, três vezes a Copa do Imperador, além de claro, a antecessora da Champions Asiática de 1987, já citada anteriormente, com o técnico nipo-brasileiro George Yonashiro.

Ruy Ramos comandando a seleção japonesa de Beach Soccer durante a Copa do Mundo de 2019
(Foto: Getty Images)

Após se aposentar como jogador, Ruy Ramos se tornou técnico de futebol, onde trabalhou no próprio Tokyo Verdy. Contudo, foi no futebol de areia, onde conseguiu maior destaque, inclusive com uma quarta colocação na Copa do Mundo de 2005, comandando a seleção japonesa. Em 2018, o “carioca japonês” Ruy Gonçalves Ramos Sobrinho acabou sendo eleito para o Hall da Fama do futebol japonês, um grande reconhecimento de mais uma lenda do futebol nipônico.


Wagner Lopes

Wagner Lopes com a camisa da seleção japonesa
(Foto: Getty Images)
Wagner Lopes está, definitivamente, na história do futebol japonês. O paulista nascido em Franca, no ano de 1969, começou nas categorias de base do São Paulo e se profissionalizou no clube, diferentemente de seus antecessores, onde acabou jogando por dois anos antes de se mudar para o Japão. 

Entre 1987 até 2002, o brasileiro Wagner Augusto Lopes atuou por sete times, o que o difere dos seus anteriores mais uma vez, sendo eles: Nissan Motors, atual Yokohama F. Marinos, Kashiwa Reysol, Honda FC, Bellmare Hiratsuka, atual Shonan Bellmare, Nagoya Grampus, FC Tokyo e o Avispa Fukuoka. Suas maiores conquistas foram no Nissan, onde conquistou três JSL e duas Copas do Imperador, porém o clube onde mais marcou gols foi o Kashiwa Reysol, com um total de 85 em 96 partidas. 

Wagner conseguiu a cidadania japonesa em 1997, época em que jogava no Bellmare, e participou ativamente do time que conseguiu a primeira classificação da história da seleção japonesa para uma Copa do Mundo. Pelos Samurais Azuis foram 20 jogos e cinco gols, sendo dois deles na Copa América de 1999. Sim, o Japão disputou a Copa América por convite naquela época também. Porém, o seu grande momento foi, é claro, a participação na Copa do Mundo, sendo dele, inclusive, o passe do primeiro gol do país na história das copas.

Wagner Lopes sob o comando do Albirex Niigata em 2017
(Foto: Getty Images)
Após se aposentar no ano de 2002 do futebol profissional, Wagner Lopes virou técnico de futebol e passou por diversos clubes, principalmente no Brasil. Em seu “novo país”, foi assistente do Gamba Osaka e treinador do Albirex Niigata. O seu último trabalho foi em Salvador, mais especificamente, no Vitória durante a campanha da Série B de 2021, onde o clube acabou sendo rebaixado. 

Se a carreira do atacante Wagner Lopes não acabou gerando um grande vinculo especifico com determinado clube no Japão ou algo do tipo, na verdade, pouca importa, já que o jogador está na história da seleção e do futebol nipônico. Mais uma lenda do futebol do outro lado do mundo, que possui origens bem brasileiras.


Alex Santos

Alex Santos com a camisa dos Samurais Azuis
(Foto: Getty Images)
Alessandro dos Santos é o nipo-brasileiro com o maior número de jogos pela seleção japonesa, com incríveis 82 partidas em um período de quatro anos. Tão incrível quanto a sua marca, é a sua história bastante diferente em comparação dos jogadores anteriores. 

Oriundo do Paraná, primeiro fora de São Paulo, Alessandro, mais conhecido como Alex, se mudou para o Japão em 1994, aos 16 anos. Acabou se matriculando no ensino médio, onde jogou pela Meitoku Gijuku High School, antes de se profissionalizar em 1997. Seu primeiro clube profissional foi o Shimizu S-Pulse onde atuou entre 1997 e 2003, ganhando, inclusive, um prêmio de melhor jogador do ano em 1999. 

Além do Shimizu, ainda jogou por Urawa Reds, Nagoya Grampus, Toshigi SC e o FC Gifu, em terras nipônicas. Alex Santos encerrou a carreira como jogador profissional em terras brasileiras, onde atuou por times paranaenses, entre eles o Maringá, Grêmio Maringá e o PSTC.

Foto: (reprodução Instagram / Alex Santos)

Atualmente, Alex Santos se aventura como um empresário no ramo de futebol, inclusive tendo dois projetos. O primeiro é o IAS, sigla de Instituto Alex Santos, clube focado na formação de atletas. O segundo é o Aruko Sports Brasil, clube profissional da cidade de Maringá e que conquistou no último mês uma vaga para a disputa do Campeonato Paranaense do ano que vem. 

Como jogador da seleção japonesa, além da marca de 82 jogos, disputou duas copas do mundo (2002 e 2006). Com a seleção foi um título, a Copa da Ásia de 2004 onde disputou os seis jogos da competição. Você saberia me dizer quem era seu técnico? Bem, se você lembrar que o técnico do Japão na Copa do Mundo da Alemanha era o Zico, então, saiba que nesse torneio também foi o ídolo máximo do Flamengo.

Alex Santos foi comandado por Zico, na Copa do Mundo de 2006
(Foto: Getty Images)

Uma carreira e história de vida bastante diferente, porém Alessandro dos Santos, o popular Alex Santos, é mais uma das lendas brasileiras que mudaram a sua vida no outro lado do mundo. O zagueiro certamente marcou época e, com certeza, demorará a ser ultrapassado por outro nipo-brasileiro em número de jogos pelos Samurais Azuis.


Túlio Tanaka

Túlio Tanaka atuando com a camisa da seleção japonesa
(Foto: Getty Images)
O “Samurai” Marcus Túlio Tanaka fechará a nossa coluna de maneira mais do que espetacular. Em 1981, nascia em Palmeira d'Oeste no interior paulista, o zagueiro que marcaria época no outro lado do mundo. Filho de uma brasileira com um japonês, o nissei Marcus Túlio Tanaka se mudou para o Japão ainda adolescente. 

No país nipônico seus primeiros passos no futebol foram durante o ensino médio na Shibuya Makuhari High School. Após se graduar, virou profissional no Sanfrecce Hiroshima e passou, posteriormente, pelo Mito HollyHock. Porém, os grandes clubes da carreira desse “Samurai” foram o Urawa Reds, onde disputou 168 jogos, e o Nagoya Grampus, onde fez 188.

Túlio marcou época com as camisas de Urawa Reds e Nagoya Grampus
(Foto: edição Japão FC)
Em sua carreira como jogador profissional, ganhou duas vezes a J1 League, (com o Urawa em 2006 e Nagoya em 2010) além de ter sido eleito o melhor jogador do ano de 2006 e estar presente no “melhor onze” da temporada por nove vezes de maneira consecutiva, entre 2004 e 2012. Pelo Urawa, ainda ganhou uma Champions Asiática em 2007 e duas Copa do Imperador, colocando-o como uma das lendas e maiores jogadores da história do clube. 

Pela seleção nipônica, Marcus Túlio Tanaka fez 43 jogos e marcou 8 gols. Desses 43 jogos, quatro foram na Copa do Mundo de 2010, seu último momento com a seleção nipônica em sua carreira. Além da seleção principal, o nipo-brasileiro disputou os Jogos Olímpicos de 2004, onde jogou as três partidas daquele torneio. 

Marcus Túlio Lyuji Murzani Tanaka se aposentou em 2017 pelo Kyoto Sanga, onde fez 92 jogos e incríveis 19 gols. Falando em gols, foram mais de cem em sua carreira, o que é uma marca considerável para um zagueiro. Marcus Túlio Tanaka, mais um nipo-brasileiro, assim como os seus antecessores, que marcaram a história do futebol japonês.



Agora fica o questionamento; afinal, quem será o próximo? Porque, certamente, teremos um próximo, devido à grande relação que nós, brasileiros, possuímos com o outro lado do mundo, em especifico, o Japão. Que o jogo de amanhã, que não terá brasileiros no lado japonês, seja um bom espetáculo!








SOBRE O AUTOR:







BRUNO PERADOTTO | REDATOR | @brunoperadotto - Apenas mais um entusiasta de futebol e cultura japonesa. Bacharel em Ciências Econômicas e pós-graduado em Gestão de Pessoas, ambas pela PUCRS. Atualmente, um aspirante a treinador pela ATFA (Licença C e B), pós-graduando em Futebol e realizando um bacharel em Educação Física pela UFRGS.


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