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Aos 55 anos, Kazu Miura segue driblando o tempo em busca de novos recordes

A lenda japonesa faz 55 anos em novo clube buscando mais um desafio em sua infindável carreira

Kazu MIura atuando com a camisa do Yokohama FC
(Foto: Getty Images)

Vida longa ao rei. É assim que podemos definir a longa e vitoriosa carreira de Kazu Miura em mais de incríveis 30 anos de carreira profissional. Também chamado de “King Kazu” como demonstração de respeito por onde passou e pela sua história expressiva dentro do futebol, o experiente atacante (que já atuou no futebol brasileiro na fase inicial de carreira passando em clubes como Santos, Palmeiras, Matsubara, CRB, XV de Jaú e o tradicional Coritiba) é dono de incríveis marcas ao longo dos anos, onde acompanhou de perto o desenvolvimento da seleção japonesa e da criação da liga profissional do país.


O início no Brasil

Kazu posa com a camisa de campeão paulista infanto-juvenil, conquistada com a camisa do Juventus da Mooca
(Foto: arquivo pessoal Oswaldo de Lemos)

Nascido em Shizuoka em 26 de janeiro de 1967, Kazu Miura iniciou cedo sua trajetória no futebol, dando seus primeiros passos como jogador na Shizuoka Gakuen School, onde também concluiu o ensino médio. Na época o futebol no Japão era amador e ainda não possuía uma liga profissional, Kazu então decidiu que deveria alçar voos maiores. 

Em 1982, com apenas 15 anos e com a ajuda do seu pai e empresário Nabuo Naya, Kazu embarcou para o Brasil para iniciar sua carreira de jogador profissional. 

Sua primeira experiência seria nas categorias de base do tradicional Juventus da Mooca. O adolescente japonês de apenas 15 anos e que sabia falar poucas palavras em português teve seu primeiro contato com o futebol em solo brasileiro através da bola pesada de futsal. Nas quadras, Kazu chegou a ser campeão paulista infanto-juvenil com a camisa do Moleque Travesso. Pouco tempo depois chegava às categorias de base do Santos.

Diferente dos tempos atuais, em que os clubes brasileiros investem em sua base, Kazu passou por momentos difíceis e manteve o seu sustento graças aos investimentos do seu pai, que embarcou no sonho do filho de se tornar jogador de futebol. 

Em 1986, Kazu assinaria seu primeiro contrato profissional com o Santos, sendo emprestado logo depois ao Palmeiras, onde teve a oportunidade de viajar ao Japão em uma turnê de amistosos feita pelo clube paulista em solo japonês. Depois disso, o atacante ainda teria passagens pelo pequeno Matsubara, do Paraná e CRB, de Alagoas, se tornando o primeiro asiático a atuar em um clube do Nordeste. 

Kazu atuando com a camisa do Palmeiras durante amistoso no Japão
(Foto: reprodução)

A ascensão no XV de Jaú 

Kazu em passagem pelo XV de Jaú, em 1988
(Foto: Carlos Ferrari)
Em 1988, Kazu chegava ao XV de Jaú, outro tradicional clube do interior paulista, que vinha sendo a sensação da temporada. Com um trio de ataque formado por Nilson, Sonny Anderson e Kazu, o Galo da Comarca apresentava um belo futebol e vinha dando trabalho aos times da capital naquele ano. O time de Jaú conseguiu garantir vaga na fase final ficando na quarta colocação do grupo A, com direito a vitória sobre o Corinthians por 3 a 2. Kazu deixou sua marca sendo o autor de um dos gols da partida. Apesar do time não ter feito uma boa campanha na fase final, o japonês foi um dos destaques da equipe, atraindo olhares de outros clubes.


Passagem no Coritiba e a projeção à fama

Kazu MIura atuando pelo Coritiba em 1989
(Foto: reprodução de internet)

As belas atuações de Kazu no Galo da Comarca chamou a atenção do Coritiba. No clube paranaense, o japonês fez parte de um dos times mais célebres da história do clube alviverde, dividindo vestiário com craques como Oswaldo, Tostão e Chicão. Recebeu a camisa 11, número que leva nas costas até hoje. Foi um dos destaques do Brasileirão de 88, mesmo tendo jogado apenas parte dele. Pela sua atuação na competição, chegou a ser indicado ao prêmio Bola de Prata, entregue pela revista Placar aos melhores do campeonato.  No ano seguinte, Kazu viria a conquistar o título de campeão paranaense com a camisa do Coxa, que fez uma campanha incontestável naquele ano com 19 vitórias, 8 empates e apenas uma derrota.


Volta ao Santos e despedida do futebol brasileiro

Kazu MIura atuando com a camisa do Santos
(Foto: reprodução de internet)

Depois de deixar o Coritiba, Kazu retornaria ao Santos, agora como titular do time principal e muito abraçado pela torcida alvinegra. Fez uma bela campanha no Campeonato Paulista de 1990 com grandes atuações.

O contrato de Kazu com o time paulista terminaria em julho daquele ano. O clube, então, decidiu por não renovar. Era hora de voltar para casa.


O retorno ao Japão e sua importância para o sucesso da J. League

Zico e Kazu se cumprimentam antes de partida válida pela J. League
(Foto: Getty Images)

Após iniciar sua carreira no futebol brasileiro, Kazu Miura volta ao Japão no intuito de ajudar a disseminar o futebol no país, que engatinhava rumo a sua profissionalização.

Por sua grande experiência adquirida em sua passagem pelo Brasil, o ainda jovem Kazu voltou ao seu país natal como um verdadeiro rei e com a alcunha de maior jogador do país.

O clube escolhido por King Kazu foi o já multicampeão Yomiuri FC, que mais tarde viria a se chamar Verdy Kawasaki e hoje leva o nome de Tokyo Verdy, um tradicionalíssimo e vitorioso clube que atualmente anda fora dos holofotes, mas que na época era não só uma das potências do futebol local como também foi um dos membros fundadores da recém formada J-League.

Ao lado de Zico e de outras estrelas do futebol mundial como Gary Lineker e Dragan Stojkovic, foi um dos grandes responsáveis por estimular a popularidade da J. League nos primeiros anos de sua criação.

Com a camisa do Verdy e por longos oito anos de serviços prestados pelo clube, Kazu realizou 192 jogos e marcou incríveis 100 gols. 


Passagens pelo futebol europeu


Kazu MIura em sua passagem pelo Genoa, da Itália
(foto: Getty Images)

Após grande sucesso no Japão, Kazu decidiu se aventurar no futebol europeu, acertando sua ida para o Genoa e se tornando o primeiro jogador japonês a atuar no futebol italiano. Mas no Velho Continente o jogador não conseguiu repetir o sucesso feito no Japão e após frustradas passagens pela Itália e pelo futebol croata, atuando pelo Zabreg (atual Dinamo Zagreb) Kazu resolveu voltar para o futebol japonês. 

Seleção japonesa; sucesso e frustração

Kazu Miura atuando com a camisa da seleção japonesa
(Foto: Getty Images)

Apesar de sua frustrante passagem pelo futebol europeu, Kazu continuava fazendo sucesso pela seleção. O jogador fez sua estreia pelos Samurais Azuis em 1990 e dois anos depois já levantava sua primeira taça, a de campeão asiático de 1992, título inédito para o país.

No ano seguinte, o atacante vivia sua primeira grande frustração com a camisa da seleção nipônica. Após ter feito um grande início de Eliminatórias, marcando 14 gols e se tornando o artilheiro do torneio, o jogador viu o sonho de levar sua seleção pela primeira vez para uma Copa do Mundo ir por água abaixo quando Jaffar Salman empatou o jogo para o Iraque aos 45 minutos do segundo tempo na última partida da fase final de classificação, tirando o Japão da Copa do Mundo de 1994. O episódio ficou conhecido como Agonia de Doha. 

Em 1998, Kazu teria uma segunda chance de levar sua seleção a um Mundial. Após fazer uma grande Eliminatória, repetindo os 14 gols marcados na edição anterior, sendo 4 deles na fase final diante do Uzbequistão, o camisa 11 foi um dos principais responsáveis por levar o Japão as repescagens, onde os Samurais azuis venceram a seleção do Irã por 3 a 2, com gol de ouro marcado aos 13 minutos do segundo tempo das prorrogações por Masayuki Okano que carimbou, pela primeira vez, a classificação da seleção nipônica para uma Copa do Mundo. Episódio que mais tarde seria denominado pelos japoneses como "O Júbilo de Johor Bahru".  

Apesar disso, Kazu não chegou a disputar o Mundial. Mesmo estando na lista de pré-selecionados do técnico Takeshi Okada, o atacante foi cortado da seleção um mês antes do início da Copa por decisão do próprio treinador, que é contestado até hoje. 

O Japão seria um fiasco em sua primeira participação em uma Copa, acumulando 3 derrotas na fase de grupos e marcando apenas um gol, o que aumentou ainda mais a cobrança ao técnico Okada, que não suportou a pressão e foi demitido logo em seguida. 

Depois disso, Kazu disputou apenas mais dois jogos com a seleção em 2000, encerrando sua trajetória com a camisa dos Samurais Azuis aos 31 anos. Disputou 89 jogos e marcou 55 gols, se tornando o maior artilheiro da história da seleção em jogos oficiais.


Aventura nas quadras

Kazu Miura atuando pela seleção japonesa de futsal em amistoso diante da Ucrânia
(Foto: Getty Images)

Em 2012 Kazu Miura tinha a chance de, enfim, disputar uma Copa do Mundo com a camisa da seleção japonesa, desta vez nas quadras. 

Aos 45 anos, a lenda foi convocada pelo espanhol Miguel Rodrigo, técnico da seleção japonesa na época, para a disputa do Mundial de futsal que seria disputado na Tailândia. 

O jogador fez sua estreia nas quadras em um amistoso preparatório diante do Brasil, em um empate por 3 a 3. Já no Mundial, o Japão conquistou apenas uma vitória e um empate na fase de grupos e não conseguiu classificação para a próxima fase. 

Para Kazu, ficou a boa experiência de, enfim, poder disputar uma Copa do Mundo com a camisa da seleção e o registro de mais um recorde quebrado.


Há vida fora da seleção

Kazu Miura em seus tempos de Kyoto Purple Sanga
(Foto: Getty Images)

Após a frustração com a seleção, Kazu decidiu focar sua carreira nos clubes. Já com o seu reinado no futebol japonês estabelecido e após a frustrante passagem pelo futebol europeu jogando pelo Dínamo Zagreb, o jogador voltaria ao Japão para defender o tradicional Kyoto Purple Sanga, onde o destaque que teve lhe rendeu uma transferência para um clube que buscava ascensão na pirâmide do futebol japonês: o Vissel Kobe.

Tanto a passagem por Kyoto quanto por Kobe tiveram bons números, porém a proximidade dos 40 anos começava a pesar e fazer com que um novo desafio fosse aceito: em 2005 veio a transferência para o Yokohama FC, onde a pressão era naturalmente menor do que nos dois clubes anteriores, mas foi onde Kazuyoshi Miura quebrou seus principais recordes.

 

O início de uma nova era

Kazu Miura em seus primeiros anos com a camisa do FC Tokyo
(Foto: Getty Images)

Em 07 de julho de 2005 Kazu Miura assinava contrato com o Yokohama FC, que disputava a J2 League (segunda divisão japonesa) na época. Em sua primeira temporada com a camisa do Fulie, o camisa 11 disputou 21 jogos e anotou 4 gols, o clube acabou terminando a J2 League daquela temporada na penúltima colocação. No final daquele mesmo ano, o jogador foi emprestado ao Sydney, da Austrália, para a disputa do Mundial de Clubes. A passagem pelo clube australiano durou apenas 6 jogos; 4 pela A. League e 2 pelo Mundial, onde o jogador marcou duas vezes.

Kazu passou a maior parte do tempo em que esteve no Fulie disputando a J2 League. Foram 14 temporadas na segunda divisão japonesa. Sua melhor temporada com a camisa do clube foi em 2006, quando anotou 6 gols e ajudou o time na conquista do título e do acesso à J1 League da temporada seguinte. Foi o ano em que o camisa 11 teve mais minutos em campo com a camisa do Fulie. Em 2008, o clube retornava a segunda divisão japonesa após péssima campanha na J1, com apenas 4 vitórias conquistadas em 34 jogos disputados. O Fulie só conseguiria voltar a elite do futebol japonês em 2019.

Apesar disso, a palavra "limite" passou longe da lenda em sua passagem pelo clube de Yokohama; o longo período pelo Fulie fez de Kazu o jogador mais velho a disputar uma partida profissional aos 50 anos em 2017 e no mesmo ano foi o jogador mais velho da história a marcar gols (contra o Thespakusatsu Gunma).

Com um "apetite" insaciável por recordes e por entrar ainda mais na história do futebol, o atacante se tornou o atleta mais velho a entrar em campo pela Copa da Liga do Japão quando já chegara aos 53 anos de vida. Depois do feito na copa, o feito na liga viria em setembro de 2020, quando ao entrar em campo em partida contra o Frontale, Kazu se tornou não só o jogador mais velho a entrar em campo pela J-League como também o jogador mais experiente a disputar uma partida de primeira divisão de futebol nacional.

Com o passar do tempo e o avanço da idade, Kazu ia perdendo cada vez mais espaço e sua presença no time resumia-se mais ao papel de "jogador exibição". Em 2021 Kazu teve apenas um minuto em campo pela J1 League e, somado o tempo em que atuou durante toda a temporada, o jogador esteve em campo por apenas 44 minutos. Muito pouco para quem tem sede por desafios como Kazu Miura. Era hora de buscar novos ares.

 

O fim de uma era e o início de um novo ciclo
Ao lado do seu irmão Yasutoshi, Kazu é apresentado no Suzuka Point Getters
(foto: reprodução / Suzuka Point Getters)

Em janeiro de 2021, prestes a completar 55 anos, "o interminável" assinava, por empréstimo, com o Suzuka Point Getters, clube que disputa atualmente a JFL, que equivale a quarta divisão japonesa. 

O novo ambiente de trabalho de Kazu é bem favorável para que o camisa 11 se sinta em casa e possa continuar desfrutando do futebol e quebrando seus recordes. O clube é treinado e gerenciado por Yasutoshi Miura, irmão mais velho de Kazu e ex-companheiro de clube do camisa 11 em outras épocas. Os irmãos atuaram juntos pelo Vissel Kobe e pelo Santos, na curta passagem de Yasutoshi pelo time da Vila Belmiro.

Esse é um negócio em que as duas partes saem ganhando; Kazu poderá ter mais tempo dentro de campo e continuar desfrutando do futebol, enquanto o clube terá um experiente e vitorioso "vovô garoto" em sua equipe, que poderá ser fundamental para ajudar os "Racers" no desafio de seguirem subindo divisões e em breve atuarem na J3 League. A final de contas, de desafios ele entende.

Sempre há o questionamento de quando Kazuyoshi Miura dará adeus aos gramados.  No entanto, ainda que já na casa dos 55 anos e prestes a iniciar a 37ª temporada de sua carreira, King Kazu deve continuar por mais alguns anos tentando driblar o tempo e quebrando recordes para assim eternizar ainda mais seu respeitável e admirável reinado.











SOBRE O AUTOR:





ANDRÉ RIBEIRO |  @andrevitur - Estudante de Jornalismo pela Estácio e de Serviço Social pela UFF. Social media em Cobblers Brasil e no Samp Brasile, além de redator no jornal O Prefácio, apaixonado por música e pela cultura nipônica.


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