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CONEXÃO NIPPO-BRASIL: A passagem do Coração Valente no Japão

 

O "Coração Valente" teve passagens por Verdy Tokyo e Urawa Reds
(Foto: Twitter / @contactoigor)

Você muito provavelmente se lembra de quem foi Washington — ou talvez o conheça pela alcunha de “Coração Valente” que também o popularizou — e se por incrível que pareça, ainda não se recorde, basta uma simples visita ao Google para se informar melhor.


Hoje, na nossa coluna, vamos relembrar o início de sua carreira e destacarmos como foi sua caminhada no futebol nipônico.


O brasileiro superou seus problemas de saúde e trilhou uma estrada de vitórias no esporte — e também fora. Puro centroavante, Washington surgiu no Caxias, passou por Internacional, Ponte Preta, Paraná, retornou a Macaca e em 2002 foi um dos investimentos do Fenerbahçe (TUR) naquela temporada. No final daquele mesmo ano, o atacante alegou dores no peito e deu entrada em um hospital local por motivos de um pré-infarto. 


Com toda a luta travada fora dos campos, o clube turco suspendeu o pagamento de seus salários, fazendo com que o brasileiro fosse obrigado a buscar um novo clube no seu país de origem. No início de maio do ano seguinte, Washington acertou com o Athletico  à época, ainda chamado de Atlético-PR.


Ainda assim, foi logicamente reprovado nos exames cardíacos, impedindo-o de assinar um contrato com o Furacão. Houve um acordo: Washington treinaria no clube durante um semestre e sem receber salários. Foi submetido a uma bateria de exames e após sua recuperação, firmaria o então contrato com a equipe. No final daquele ano, Washington foi liberado após seus exames comprovarem que estava apto à prática esportiva. Chegou a treinar com o time B e no início de 2004, o clube oficializou o atacante.


Washington em seus tempos do Athletico
(Foto: Divulgação)


Após grande temporada no Brasil, Washington vai ao Japão


Em alta, o atacante se despediu do clube rubro-negro. Foi campeão nacional, obteve uma histórica marca de 33 gols marcados e conquistou prêmios como a Bola de Prata, a Chuteira de Ouro pela Revista Placar e alguns outros que deixariam a lista ainda maior.


No final de janeiro de 2005 foi apresentado pelo Tokyo Verdy e um mês depois, estava esbanjando seu faro de gol nos gramados japoneses, anotando logo dois gols em sua estreia, contra o Marinos, em um empate por 2 a 2. A partida em questão era válida pela Supercopa do Japão e na disputa de pênaltis, a equipe do brasileiro venceu por 5 a 4, e Washington pisava em solo asiático erguendo uma taça – e que infelizmente seria a única pela equipe de Tóquio.


O Tokyo Verdy foi o primeiro clube japonês na carreira do brasileiro
(Foto: Divulgação)

O atacante marcou ainda mais na temporada em questão. Terminou a J-League de 2005 com ótimos números: 22 gols e foi vice-artilheiro do certame, que ao final de tudo, para sua infelicidade, teve seu time como um dos rebaixados para a segunda divisão nacional. Veja os números do atacante com o Tokyo Verdy:


(Foto: Twitter / @contactoigor)

Para fechar nossa homenagem ao jogador nessa primeira passagem, vale mencionar que Washington ainda teve a “audácia” de marcar contra ninguém mais, ninguém menos, que os galácticos do Real Madrid, em amistoso em 2005, como você pode conferir no vídeo abaixo:




Em Saitama, títulos e artilharias para o brasileiro


Washington mudou de ares e voltou a defender um clube rubro-negro, mas agora, do outro lado do mundo. Para a satisfação de muitos, o roteiro foi basicamente o mesmo: troféu em mão e bola na rede.


Para recordarmos o sucesso com seu novo clube, voltemos a última temporada para contextualizar: quando ainda pertencia ao Tokyo Verdy, o Urawa Reds bateu na trave na tentativa de conquistar a J-League pela primeira vez. Ficaram na vice-liderança com 59 pontos, enquanto o Gamba Osaka somou 60 e levou a taça para casa. Um ano depois, em 2006 e com Washington, o desfecho seria diferente.


Aliás, o atacante repetiu o feito em sua nova casa — ainda que não tenha entrado em campo — e conquistou algo, dessa vez a Copa do Imperador, contra o Shimizu S-Pulse, por 2 a 1.


Não demorou mais de um mês para sua estreia. Contra o Gamba Osaka, pela Supercopa, o brasileiro estufou a rede em uma ocasião, virando a partida e ajudando seu time a ser campeão. O duelo terminou 3 a 1.


No decorrer da temporada, Washington se destacou ainda mais. No campeonato nacional, protagonizou uma disputa intensa pela artilharia do torneio junto ao compatriota Magno Alves, que atuava pelo próprio Gamba. Ambos os brasileiros terminaram a J-League com 26 gols marcados. O Magnata — como conhecido em nosso país, precisou de 31 partidas naquela ocasião, enquanto o Coração Valente somente 26, com uma média avassaladora de 1 gol por jogo.


A taça foi para Saitama. O Urawa Reds enfim conquistou seu sonhado título e Washington teve papel fundamental, pois dos 67 gols marcados pelo seu time, 26 vieram de seus pés e outros 04 contaram com sua assistência. Uma participação direta em 30 dos 67 que também lhe rendeu uma vaga na seleção do campeonato, fazendo dupla de ataque com o outro artilheiro, Magno Alves.


Washington brilhou com a camisa do Urawa Reds, se tornando um dos maiores ídolos do clube japonês
(Foto: Getty Images)

Na edição seguinte, seu desempenho foi menor, mas não ruim. Marcou 16 gols e deu outra assistência. Foi o quinto artilheiro do torneio e seu time ficou com o vice-campeonato. Mas se engana quem pensa que o Urawa Reds passou o ano de 2007 de mãos vazias.


Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes


No Grupo E do torneio continental, o rubro-negro superou a concorrência: somou 10 pontos e garantiu a vaga no mata-mata. Foram duas vitórias, quatro empates e nenhuma derrota. Sydney (Austrália), Persik Kediri (Indonesia) e Shanghai Shenhua (China) ficaram pelo caminho. Washington passou em branco na fase inicial e demorou a aparecer na sequência.


O Urawa Reds eliminou o Jeonbuk Hyundai Motors (Coreia do Sul) nas quartas de final (2 a 1 no Japão e 2 a 0 fora de casa). Na semi-final, foi a vez de outro sul-coreano se despedir e Washington enfim surgir. Dois empates por 2 a 2 e o atacante foi as redes na partida de volta no Japão e converteu sua penalidade na classificação por 5 a 4 na marca da cal.


Na finalíssima, empate em 1 a 1 no Irã, na casa do Sepahan. Na volta, o Urawa se sagrou campeão asiático após vitória por 2 a 0. Washington quase marcou um gol do meio de campo e participou do segundo, quando realizou a parede contra a zaga adversária, passando para Yuichiro Nagai, que parou no arqueiro iraniano. Yuki Abe completou para o gol vazio, sacramentando o título histórico.


Em dezembro daquele mesmo ano, o Urawa se reencontrou com o Sepahan e voltou a vencer, dessa vez pelas quartas de final do Mundial de Clubes. Vitória por 3 a 1, sendo o segundo gol marcado pelo brasileiro. Na semi-final, coube aos japoneses encararem o poderoso Milan de Carlo Ancelotti. Os italianos contavam com estrelas do futebol mundial, como Kaká, Dida, Seedorf, Cafu, Maldini, Gattuso, Pirlo e outros. Em campo, os comandados de Holger Osieck — técnico alemão que dirigia o Urawa — fizeram jogo duro e não se entregaram tão facilmente. O Milan sofreu, mas venceu com gol do próprio Clarence, 1 a 0.


Washington comemora gol com seus companheiros de Urawa Reds no Mundial de Clubes 2007
(Foto: Getty Images)

Washington ainda beliscou a artilharia da competição ao término, pois anotou dois gols na decisão pelo 3° lugar no empate por 2 a 2 contra a equipe do Étoile du Sahel, da Tunísia. Nos pênaltis, os japoneses triunfaram em um 4 a 2 sem desperdiçar nenhuma cobrança.


Abaixo você confere a escalação inicial da equipe que entrou em campo para lutar por uma vaga na final. O lendário Marcus Tulio Tanaka na defesa, o zagueiro Nenê (ex-Corinthians, Grêmio e outros), o excelente Makoto Hasebe, volante que mais tarde faria carreira na Europa e também Yuki Abe, outro que chegou a atuar no velho continente, são alguns dos integrantes:


Foto: Reprodução / Youtube

Veja também os números gerais do brasileiro pelo Urawa
Reds:

Foto: Twitter / @contactoigor


o adeus de Washington

Entre lágrimas, Washington anunciou o fim de sua carreira como jogador de futebol
(Foto: Agência Photocâmera)

Após o fim do Mundial de Clubes, Washington retornou ao Brasil. Aos 32 anos, foi anunciado pelo Fluminense e no mesmo ano, bateu na trave em uma disputa continental; a Libertadores de 2008. Ainda atuou pelo São Paulo de 2009 até 2010, quando retornou ao Rio de Janeiro, conseguindo ser campeão brasileiro daquele ano pelo time das Laranjeiras.


No dia 13 de janeiro de 2011, confirmou sua aposentadoria.


Washington foi um atacante muito digno. Alto, forte e com faro de gol. Empurrava defesas adversárias e não era egoísta. Ganhava no corpo, fazia bem o pivô e alimentava o jogo de quem tentava se aproximar. Pode ter sido taxado de ser grosso, não ser técnico, mas era um autêntico 9 e deixou muitas torcidas felizes, principalmente no Japão, como veremos a seguir, mesmo tantos anos após sua passagem, ainda tem o carinho de torcedores, tendo eles assistido ou não:


“Eu não era nascido quando o Washington estava por aqui, mas mesmo assim eu sei quem ele foi. Um grande atacante”. – Disse um adepto, enquanto o segundo, mais experiente, me relatou ainda se recordar dos bons momentos.


“Ele foi um atacante muito bom. Eu ainda me lembro vividamente de cada partida!”


Para encerrar, deixemos uma frase dita pelo próprio Washington em sua despedida dos gramados:


“Um dos meus maiores orgulhos é saber que fui exemplo de vida para algumas pessoas. Que seja uma, mas que dei o exemplo. Muitos mandam mensagens e dizem que o que fiz fez com que a pessoa superasse um problema. Esse é o maior legado que levo”.











SOBRE O AUTOR:





IGOR FERREIRA (@contactoigor) - Décadas de futebol, uma vida de Fluminense e anos de Sanfrecce Hiroshima. Nas horas vagas, um entusiasta das histórias de J. R. R. Tolkien, George R.R. Martin e C. S. Lewis e um admirador ferrenho do horror cósmico, do inominável e do indizível.
















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